Não chame de caridade: A tribo amazônica mereceu os créditos de Carbono

Na próxima vez em que disserem que dinheiro advindo da compra de Carbono é uma doação de países ricos para países pobres, peça para essa pessoa pesquisar o nome “Almir Suruí” no Google, ou então pesquisar “Almir Suruí Google” ao mesmo tempo. Ele é o jovem chefe dos Suruí, uma tribo indígena da Amazônia que abriu mão da renda garantida da agricultura para preservar a floresta na esperança de obter créditos do carbono capturado por ela.

Seus esforços lhe proporcionaram um lugar na lista das 100 pessoas mais criativas em negócios da revista Fast Company de 2011 – e também ameaças de morte de pessoas que querem que a exploração ilegal de madeira continue na Amazônia.

Almir participou de um evento paralelo na Conferência do Clima, em Durban, onde apresentou um panorama do Projeto Carbono Florestal Suruí – um projeto que já está se tornando um modelo para a América Latina de como a população indígena procura caminhos para conservar suas florestas e, ao mesmo tempo, seus meios de subsistência – pela Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) e mitigação das Mudanças Climáticas.

Quando uma mulher na plenária perguntou a Almir Suruí porque ele escolheu o caminho mais difícil em vez de aceitar o dinheiro de organizações de caridade, a resposta foi simples e direta: “Nós não queremos estar em uma situação onde pessoas que não estão envolvidas nos digam o que fazer.”

É isso. Sem lições sobre como o mundo desenvolvido deve algo a ele, ou sua tribo, ou seu hemisfério – apesar de que, se alguém tem o direito de dar essa lição, é ele e o povo Suruí. Antes de 1969, a tribo não tinha contato com o mundo externo; na década seguinte, o número de indivíduos caiu de 5.000 para menos de 300, conforme sucumbiam a doenças contra as quais não tinham imunidade. Seu território foi rapidamente tomado para a agricultura e pecuária, até que uma pequena área foi demarcada em 1983.

Hoje, o número dos Suruí alcançou 1.000, e eles se tornaram capazes de preservar o seu território assim como a floresta ao redor cresceu mais e mais esparsa (veja a imagem abaixo retirada do Google – os Suruí estão no centro; à direita deles está outro território indígena).

A Fronteira do Desmatamento

Os Suruí se mantém principalmente através da agricultura, e até dois anos atrás também passaram a ganhar dinheiro com o comércio não oficial de madeira. A poucas variedades de árvores que produzem madeira de qualidade estão sendo rapidamente esgotadas, e a tribo se depara com uma difícil escolha: derrubar as florestas para abrir espaço para a produção de café, banana e criação de gado, ou se resignar a um futuro de pobreza.

Como alternativa, eles acharam um terceiro caminho: usar o Carbono Florestal para dar início a uma completa reestruturação de sua economia, que envolva a colheita sustentável de produtos florestais não-madeireiros e o ecoturismo.

É um projeto que conheci na Conferência do Clima em Copenhagem, em 2009, pouco depois que o chefe Suruí convenceu a ONG Forest Trends (que publica a Ecosystem Marketplace) a fazer uma análise do sistema legal brasileiro e verificar se os Suruí detém os direitos do Carbono das árvores de seu território (e parece que sim). Na época, ele se apresentou junto a Jane Goodall e representantes do Google Earth Outreach – dos quais ganhou, em 2007, apoio para monitorar a exploração ilegal de madeira na floresta.

Desde então, ele continuou a ser uma ponte entre as duas culturas e se tornou o principal proponente dos fundos de carbono entre outras tribos brasileiras.

Por dois anos, a tribo se forçou a abdicar da madeira, apesar das ofertas lucrativas e ameaças dos madeireiros. Para isso acontecer, Almir trabalhou com equipes de engenheiros florestais e sociólogos a fim de explicar o conceito do projeto a todos os membros e, dessa maneira, ganhar seu apoio.

Desenvolver o projeto exigiu unir uma rede de ONGs, consultorias e advogados, cada um com um papel diferente. Uma dessas ONGs, o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentavel do Amazonas – Idesam, foi responsável por adaptar um sofisticado modelo econométrico para medir o impacto da atuação antrópica na floresta, e então, converter esse impacto na economia de toneladas de carbono. Implementar o projeto exigiu patrulhar o perímetro e realizar um constante monitoramento e medição da biomassa. Os Suruí se tornaram, essencialmente, silvicultores modernos.

Se o projeto atingir seu objetivo, serão sequestradas cerca de cinco milhões de toneladas de carbono durante 30 anos – e ninguém sabe quanto isso valerá. Eles irão ganhar créditos por uma pequena parte à margem do território, mas estarão preservando muito mais que isso.
A renda proveniente do carbono será usada em treinamento de manejo florestal sustentável, assim como em infra-estrutura para saúde e educação. Compradores dos créditos de carbono serão capazes de reduzir a pegada ecológica através do pagamento por Serviços Ambientais.

Investidores e compradores gastaram mais de US$ 175 milhões em projetos de carbono florestal em 2010, representando um compromisso de sequestrar carbono suficiente para compensar quase 30 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) emitidas. Eles fizeram isso porque conservar as florestas é, no momento, um dos caminhos mais efetivos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa – mas isso não irá salvar a crise climática. No máximo, irá nos dar um pouco mais de tempo até que possamos realizar as reduções industriais necessárias para preservar nosso modo de vida para as futuras gerações.

(Matéria reproduzida na Revista Forbes: http://www.forbes.com/sites/stevezwick/2011/11/30/amazonian-tribe-has-earned-its-carbon-crop/)

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