Novos projetos para Maués começam a sair do papel

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Grupos de trabalho que formam a Aliança Guaraná de Maués propõem impactos positivos para diferentes setores da sociedade mauesense.

Por Henrique Saunier
Foto de Adriano Sarmento

 

Os projetos colocados em prática pela Aliança Guaraná de Maués (AGM), estão transformando diferentes setores da sociedade local: melhorias nas condições de comercialização e beneficiamento de produtos locais, a organização e apoio a produtores rurais, o fortalecimento da educação como base do desenvolvimento social e a diversidade e a valorização cultural de Maués, são os pilares dos projetos socioambientais elaborados pelos Grupos de Trabalho (GT) da AGM. As propostas de cada GT, foram apresentadas em um grande encontro no último dia 03 de abril, no município de Maués e já começam a ser colocadas em prática.

“A aliança tem como objetivo dividir o papel de construção do desenvolvimento socioambiental regional com todos os atores interessados do município, entendendo a importância de todos como agentes transformadores e multiplicadores de impactos positivos e replicáveis”, ressalta Ramom Weinz Morato, gerente do Programa de Produção Rural Sustentável do Idesam.

Um dos GTs estratégicos da AGM, o de Produção Sustentável, terá como frente de atuação o problema do escoamento e comercialização dos produtos, já que a falta de formas adequadas de distribuição muitas vezes desestimula o agricultor mauesense. O GT inclusive já realizou uma pesquisa em Maués para identificar quais as necessidades na Feira do Produtor, onde foram constatados problemas estruturais e logísticos no espaço, além da necessidade de oficinas de capacitação aos feirantes.

Nascida em Maués, a engenheira agrônoma Laís Almeida, responsável pelo GT Produção Sustentável, destaca o alto potencial produtivo de sua terra, muitas vezes subaproveitado pela falta de conhecimento técnico ou de estrutura. “Inúmeros produtos acabam se estragando nas propriedades por falta de conhecimento do uso e de como fazer esse beneficiamento. Os produtores estão abertos a novas técnicas, novas tecnologias. Eles já perceberam a necessidade de se produzir com uma qualidade melhor e com menos insumos. Mas acredito que o ponto chave é conscientizar a população para consumir alimentos de produtores locais”, ressalta.

Um dos entraves enfrentados pelo GT é a falta de informação disponível a respeito dos mais de 3.000 agricultores do município de Maués, essencial para qualquer planejamento que busque melhorias ao setor primário na região. A proposta do GT é a construção de uma base virtual de informações socioprodutivas, feita em parceria com agentes locais, EMBRAPA, Prefeitura, IDAM, IFAM, UEA e outros, que servirá para subsidiar políticas e ações voltadas ao segmento.

O GT de Produção Sustentável também busca, através de parcerias de cooperação com instituições de pesquisa e extensão, proporcionar novas experiências sustentáveis de produção e disseminar as já existentes para os agricultores das mais de 200 comunidades da região de Maués. “Aqui pretende-se exaltar o que está funcionando mas com um olhar em técnicas que otimizem o trabalho do produtor ao mesmo tempo em que se diminui a utilização de insumos externos, potencializando assim a economia da propriedade”, afirma Eric Brosler.

Ações tradicionais serão fortalecidas com os tradicionais “puxiruns”, onde as famílias e comunitários trabalham coletivamente, algo que a Aliança já vem promovendo com encontros e intercâmbios entre diferentes grupos de agricultores.

O pontapé inicial para esse intercâmbio entre produtores já foi dado em dezembro de 2017, quando a AGM mobilizou agricultores da comunidade São Raimundo do Mutuca para a implantação de um sistema agroflorestal. O puxirum, além de promover o encontro de indígenas, agricultores, pesquisadores e voluntários, foi um momento de troca de conhecimentos, abordando temas como preparo do solo e criação de fertilidade, produção de adubos orgânicos como biofertilizantes e técnicas de plantio de mudas e sementes.

Com foco nos altos índices de insegurança alimentar e desnutrição entre crianças e adultos, tanto da área rural, como na área urbana, o GT também propõe a elaboração de ações de valorização dos alimentos locais, com o foco na agricultura familiar.

 

Cultura do Guaraná nas escolas

Ainda que presente no dia a dia do povo mauesense, a cultura do guaraná tradicional ainda recisa ser consolidada entre as novas gerações, algo que o GT de Educação busca fazer com a criação de um material didático voltado ao ensino infantil. Com brincadeiras, lendas e músicas regionais, o projeto “Resgatar a importância da cultura e da natureza na origem do guaraná” foi uma das propostas aprovadas pelo grupo de trabalho, que também pretende capacitar (em parceria com SEMED e IFAM), pelo menos, 40 professores em cursos de 180 horas.

Atualmente, mais de 700 professores da área rural do Município de Maués não possuem graduação ou especialização. “Percebemos uma discrepância muito grande na qualidade e estrutura do ensino da área rural com a urbana de Maués. Os professores (rurais) têm menos oportunidades de capacitação e muitos só possuem o ensino médio”, enfatiza Paulo Adelino, do GT Educação.

Outro ponto que tem gerado preocupações é o crescente uso de drogas entre os jovens, que será combatido com ações de fomento ao esporte, dança e artes em geral, aplicadas no contraturno escolar.

Isso também está alinhado com o trabalho desenvolvido no GT Produção Sociocultural, que além de fomentar eventos culturais em Maués, pretende valorizar o trabalho dos mestres e mestras da cultura local, como as parteiras, rezadeiras, artesãos e mestres do ritmo musical Gambá. Entre as propostas, se destacam as oficinas musicais e de construção de instrumentos realizadas nas comunidades; a criação e comercialização de produtos para fomentar a atividade de parteria na região; e a implantação de uma unidade modelo para fabricação de artesanatos, aliado ao manejo sustentável dos insumos usados na atividade.

Consequentemente, as propostas convergem para o fortalecimento do turismo local, que com um grupo específico para tratar do tema, já realizou um levantamento dos eventos culturais e potencialidades naturais do município para a elaboração de um roteiro turístico sustentável, que possa “irradiar” Maués como grande polo turístico.  A ideia é trabalhar o turismo internamente, com cursos de capacitação do receptivo local, sem esquecer o projeto paisagístico e sinalização aos visitantes da terra do guaraná.

Proprietário de uma pousada em Maués e membro da aliança, Luca D’Ambros salientou que o município ainda precisa resolver algumas questões estruturais que vão além da cadeia do turismo. “O turista precisa de opções para chegar e sair de Maués com rapidez e de maneira econômica, o que não acontece atualmente. A gente consegue trabalhar muito um turismo interno ou de festa”, lamenta o empresário, que também critica o atraso nas obras do aeroporto da cidade.

O coordenador técnico do projeto pelo Idesam, Eric Brosler, explica que os projetos não passaram por um processo de seleção unilateral, já que todos foram discutidos de maneira participativa e construídos coletivamente entre os grupos de trabalho. Todas as propostas dos GTs e Conselho foram avaliadas por um comitê de governança, com representantes de todos os grupos.

“Vamos executar essas metas até o final do ano e o recurso principal está vindo do Fundo de Projetos da Aliança, mas temos parceiros para auxiliar com os recursos humanos e apoio logístico. Essa reunião do comitê de governança foi para atestar com todos os representantes dos GTs as metas, para podermos fechar definitivamente o cronograma das ações, que já iniciaram nos últimos meses”, afirma Brosler.

 

Parcerias

As ações da Aliança Guaraná Maués são coordenadas e executadas pelo Idesam, com o apoio institucional e financeiro da empresa Ambev e da USAID.

São membros atuantes da AGM: Mama Ekos, Cultuam, IFAM/Maués, Prefeitura de Maués (através das secretarias Sectur, Semed, Sepror e Sedema), UEA, UFAM, REMA, Coletivo Puraquê, Hotel Miramar, Pousada Waikyru, agricultores familiares (membros do conselho de produtores), grupo de parteiras e benzedeiras, grupos de mestres do gambá (Pingo de Luz, Caminhando com Jesus e outros) e grupos de artesãs (Menino Deus e outros).

“Essa amplitude de atores demonstra o sucesso de uma iniciativa única na Amazônia, que tem experimentado ótimos aprendizados”, finaliza Brosler.

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