Pecuária de leite em Apuí: dificuldades e novos caminhos

artigo-pecuaria-leite

Por Beatriz Meduri

 

Por 10 dias, acompanhei o trabalho do Idesam no município de Apuí, ao sul do Amazonas, com o objetivo de realizar um diagnóstico da cadeia produtiva do leite. Visitei os produtores de leite envolvidos no projeto Pecuária Sustentável e levantei os pontos críticos em sua produção, dentro e fora da porteira. Nosso foco não foi apenas observar a produção de leite e sua qualidade, mas também as práticas sanitárias adotadas na ordenha, a organização do rebanho, o manejo dos animais, as condições de armazenamento e as características da cadeia produtiva do leite, as quais podem ser vistas na relação com o laticínio e no preço pago ao produtor, por exemplo.

A iniciativa de entender os pontos críticos da atividade leiteira em Apuí vem no sentido de avançar com o projeto “Pecuária Sustentável”, presente no município desde 2012 e responsável pelo plantio de árvores em áreas destinadas à pecuária, convertendo os sistemas predominantemente pastoris em sistemas silvipastoris.

Neste contexto, é necessário compreender as falhas e os potenciais da atividade leiteira, de forma a apoiar seu desenvolvimento, porém, neste momento, dando maior atenção ao manejo dos animais, armazenamento e comercialização do leite.

A realidade do projeto é trabalhar em um município que está na lista vermelha do desmatamento, cujo vetor é a derrubada de vegetação nativa para formação de pastagens. Com o objetivo de reverter este cenário, o projeto “Pecuária Sustentável” trabalha hoje com pecuaristas que têm interesse em adotar novas tecnologias de produção. O projeto desenvolvido pelo Idesam é responsável por algo novo na região: o plantio de árvores nos limites dos piquetes da pastagem, o que nutre e descompacta o solo e proporciona sombra aos animais. A rotação de piquetes é uma prática já adotada por muitos pecuaristas, porém o uso de árvores junto às pastagens ainda é incipiente no país.

Tendo em vista que a cadeia produtiva do leite é considerada uma atividade majoritariamente familiar, os produtores de Apuí não fogem a esta regra. Alguns tiram do leite a maior parte da renda familiar, enquanto outros também praticam a agricultura e têm no leite um complemento à renda. Entretanto, a falta de retorno financeiro da atividade é um ponto que todos os produtores visitados têm em comum, assim como o desejo de que haja uma melhora no futuro.

O preço pago ao produtor rural em Apuí encontra-se hoje em R$0,70/L (por litro), muito abaixo dos preços pagos no restante do país, os quais ficaram, em abril, entre R$1,1967/L (Rio Grande do Sul) e R$1,3185 (Minas Gerais), de acordo com dados levantados pelo CEPEA–Esalq/USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/ Universidade de São Paulo).

A entrega da maior parte do leite produzido na cidade é direcionada à produção de queijo, o qual é produzido por um único laticínio que domina o comércio local. Em propriedades mais distantes do centro, o leite é coletado pelo laticínio a cada dois dias, sendo armazenado em freezers dentro da propriedade nos intervalos entre as coletas.

Diante do fato de não haver laboratórios de análise de leite vinculados à Rede Brasileira de Qualidade do Leite (RBQL/MAPA) na região norte, é de se imaginar que a prática da análise mensal do leite seja inexistente, o que impossibilita a verificação adequada de casos de mastite subclínica nos rebanhos. Hoje em dia, a verificação da qualidade do leite é feita basicamente em relação à acidez e adulteração, além de “impressões”, as quais se baseiam na estrutura física das propriedades.

Análises mensais de leite são necessárias para que seja realizado o monitoramento da higiene e da mastite do rebanho, via dados de Contagem de Células Somáticas (CCS) e Contagem Bacteriana Total (CBT), respectivamente. Só assim é possível quantificar falhas e esforços em relação à qualidade do leite.

A abertura de um novo laboratório da RBQL localizado na região Norte, no Pará, tem sido anunciada pelos meios de comunicação, entretanto, não há previsão de data. Sua inauguração e futuro funcionamento possibilitarão o envio de amostras de leite dos produtores de Apuí envolvidos no projeto, para que seja feita a análise mensal de acordo com padrões estabelecidos pelo RBQL/MAPA e o monitoramento da qualidade. No entanto, enquanto o laboratório não é inaugurado, algumas práticas podem começar a ser adotadas na ordenha, como a realização do pré e do pós-dipping, e a realização de testes simples, como o “teste da caneca”.

Muito pode ser feito no sentido de desenvolver a atividade leiteira e possibilitar ao pequeno produtor rural uma renda mais digna e justa. Ações que começam com a correta higienização dos envolvidos na ordenha, adoção de boas práticas e compreensão dos ciclos produtivo e reprodutivo das vacas; e que terminam na relação dos produtores rurais com o laticínio, são capazes de modificar o perfil a atividade em Apuí, torná-la mais organizada e, por fim, melhorar a vida das famílias que têm na atividade leiteira a sua principal fonte de renda.

Posts relacionados

Deixe um comentário