Pecuária sustentável pode gerar renda e reduzir desmatamento no sul do Amazonas

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Por Ana Carolina Bastida e Gabriel Carrero*

 

A região Amazônica já perdeu cerca de 20% de sua cobertura florestal original por pastagens e outros cultivos agrícolas. O combate ao desmatamento passa pela necessidade de construção de uma solução de longo prazo, com implantação de práticas sustentáveis que garantem aumento da produtividade da produção agropecuária, reduzindo assim a pressão pela abertura de novas terras agrícolas em áreas de floresta nativa.

O novo estudo do Idesam Pecuária Sustentável em Sistemas Silvipastoris – como alcançar a viabilidade técnica, econômica e ambiental para pecuária de leite na Amazônia? mostra, com resultados empíricos, como os Sistemas Silvipastoris com Pastejo Rotacional (SSPR) garantem aumento da renda e ganhos de produtividade ao produtor familiar com baixo impacto ambiental, promovendo a recuperação de áreas degradadas e reduzindo a necessidade de abertura de novas áreas de floresta.

O relatório mostra que as boas práticas de recuperação e manejo da pastagem, a divisão do pasto em piquetes e inclusão de espécies consorciadas, práticas inerentes aos SSPR, resultaram num aumento de 4,5 vezes na lotação do pasto – de 0,75 para 3,5 Unidades Animal por hectare (UA/ha).

Para a produção de leite, o ganho também foi expressivo, em 300%, saindo de uma média de 2 mil litros para quase 6 mil litros por hectare ao ano.

O estudo também analisa os resultados econômicos e financeiros de unidades intensificadas, em contraponto aos sistemas extensivo de produção pecuária. Com uma taxa de retorno de 19% ao ano e uma receita média de quase R$ 4mil por hectare ao ano, os SSPR são, de longe mais viáveis que os sistemas convencionais, que em pequena escala possuem retornos negativos. Os resultados do estudo indicam que, para que o sistema extensivo alcance o mesmo retorno financeiro do SSPR (TIR de 19%) seria preciso uma área duas vezes maior do que os 5,2 hectares necessários para a viabilidade dos SSPR.

Em uma análise mais ampla, o estudo traz discussões quanto aos desafios e oportunidades para o ganho de escala da pecuária sustentável na Amazônia. Apesar da evidente viabilidade técnica e econômica dos SSMR apresentadas no estudo, a falta de acesso a crédito e insuficiência da assistência técnica aos pequenos produtores podem inviabilizar a aplicação dos sistemas, visto a falta de capital próprio e pouco conhecimento sobre a técnica. No sul do Amazonas, os desafios também incluem a emissão de títulos de terras para facilitar o acesso a crédito e o controle de uma praga das pastagens, um inseto conhecido como cigarrinha.

Independente dos desafios, o estudo aponta que os SSPR são compatíveis com mercado de carbono, gerando oportunidade para ganho de escala através do mecanismo de REDD+. Os sistemas silvipastoris tem potencial de recuperar áreas degradadas com reforma de pastagem, plantio de forrageiras e espécies arbóreas além do manejo rotacional do gado que garante maior tempo de vida útil à pastagem, evitando a abertura de novas áreas de desmatamento.

 

Microcrédito e Fomento

O Idesam e seus parceiros têm focado esforços em estratégias para consolidação e ganho de escala para produção pecuária de corte e leite em sistema silvipastoril no sul do estado do Amazonas.

Uma destas é a consolidação de um Fundo de Microcrédito para viabilizar a implantação de módulos de pecuária sustentável no Sul do Amazonas, onde os produtores interessados acessam o recurso suficiente para fazer as adaptações em sua propriedade e pagam pelo serviço de adiantamento, a um preço abaixo do praticado no mercado. O mecanismo permite viabilizar a entrada de novos produtores, como uma espécie de financiamento solidário. Atualmente cinco produtores já tiveram acesso ao adiantamento e, em breve, mais produtores poderão acessar o benefício.

 

 

*Ana Carolina Bastida é economista e pesquisadora do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Gabriel Carrero é biólogo e pesquisador sênior do Idesam.

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