Sistema Agroflorestal: benefícios para agricultura de Apuí

Por Priscila Rabassa

Na Amazônia, o sistema agroflorestal, também chamado de SAF, tem se consolidado como uma solução viável e sustentável ao trazer vantagens econômicas, sociais e ambientais, principalmente para a agricultura familiar.

Através da introdução de árvores frutíferas e madeireiras nas áreas de produção, em consórcio com a agricultura ou a pecuária, o produtor consegue benefícios a partir das interações que acontecem nesse processo. Estes benefícios vão desde uma maior diversidade nos alimentos disponíveis até a extração de madeira como renda alternativa.

Buscando incentivar essas práticas agroecológicas no município de Apuí, sul do Amazonas, o Idesam implantou, em 2014, uma Unidade Experimental (UE) de SAF que vem contribuindo para diversificar e aumentar a produção, além de contribuir para o equilíbrio ambiental da região. A ação faz parte do Projeto Semeando Sustentabilidade em Apuí, desenvolvido desde 2011 em parceria com a prefeitura municipal e com apoio financeiro do Fundo Vale.

A UE vem sendo usada de modelo para os produtores locais replicarem o sistema para outras áreas. Para ajudar a disseminar a ideia, também é utilizada como um espaço de troca de conhecimento e ações de educação ambiental com estudantes de cursos técnicos.

Dias de campo, intercâmbios e oficinas são realizados com produtores que fazem parte dos projetos sustentáveis desenvolvidos pelo Idesam, visando implementar sistemas de produção mais produtivos, sem a necessidade de desmatar novas áreas.

Com uma área de 1,5 hectare, a UE é palco de um estudo comparativo entre cinco tratamentos de diferentes espécies, todos em consórcio com o café e o guaraná, culturas consideradas prioritárias economicamente na região.

Foram plantadas 20 espécies diferentes, totalizando 4.830 mudas e 50 kg de sementes, entre anuais, plurianuais, madeireiras e de serviço nos cinco tratamentos, tendo como base as culturas de café e guaraná em sistema agroflorestal e a pleno sol. As plantas de serviço, como por exemplo o Ingá, são muito utilizadas para recuperar solos degradados, tornando-os mais produtivos.

As espécies foram plantadas em linhas, por meio de mudas e sementes adquiridas no Viveiro Santa Luzia, parceiro do Idesam. Durante o plantio, os técnicos buscaram cobrir ao máximo o solo para minimizar os custos com mão-de-obra, capina e roçagem.

Combinando a produção de árvores frutíferas e madeireiras com cultivos alimentares de ciclo curto, o SAF permite ao produtor colheitas desde o primeiro ano de implantação enquanto aguarda as culturas de ciclo mais longo.

“Ao associar a produção de alimentos de ciclo curto como, por exemplo, o milho, com espécies frutíferas e madeireiras em uma mesma área, o SAF permite ao produtor diversificar e aumentar a sua produção, ao mesmo tempo em que contribui para manter o equilíbrio ambiental daquela área”, afirma a pesquisadora do Idesam, Aparecida Sardinha.

Outro benefício do SAF é promover a recuperação de áreas degradadas, pois a presença de árvores contribui para conter a erosão do solo, aumentar a quantidade de matéria orgânica que pode virar adubo, diminui a proliferação de pragas e doenças o que, consequentemente, vai gerar alimentos mais saudáveis ao reduzir a necessidade de utilizar produtos químicos.

Além das vantagens ambientais, o SAF traz benefícios socioeconômicos, pois os produtos também são vendidos, gerando aumento na renda da família. Tudo isso associado à melhoria na qualidade de vida dos agricultores que, ao gerar segurança alimentar, trabalho e aumento na renda, pode utilizar as culturas perenes para continuar no campo, diminuindo o êxodo rural.

Para fomentar a agricultura familiar local e contribuir ainda com a comercialização dos produtos gerados na área do SAF, Idesam e Incra têm apoiado a organização da Feira do Produtor Rural, por meio do Projeto de Assessoria Técnica, Social e Ambiental à Reforma Agrária – ATES. A iniciativa conta ainda com o auxílio da Prefeitura de Apuí.

>> Apuí recebe feira da agricultura familiar

“A cada feira tem aumentado o número de participantes, assim como a diversidade de produtos oferecidos pelos produtores, movimentando a economia do município”, destaca Sardinha.

Resultados

Nos dois primeiros anos de pesquisa e acompanhamento, a área que mais produziu dos cinco tratamentos foi o modelo que utiliza espécies de serviço, madeireiros e agrícolas (em consórcio com o café e o guaraná). Esse modelo apresenta uma estrutura mais sombreada, com maior presença de matéria orgânica no solo e menor taxa de mortalidade das espécies de serviço, em sua maioria ingá e gliricídia.

Foi possível realizar a colheita de quase 3.200 kg de produtos como abacaxi, banana, maracujá, feijão guandu e feijão de porco, gerando uma receita de aproximadamente R$ 3 mil, que está sendo reinvestido nos experimentos. Em parceria com produtores locais, parte da macaxeira produzida foi utilizada na fabricação de farinha e comercializada, gerando uma renda extra.

O feijão de porco, não comercializado, teve uma parte replantado na área do SAF com o objetivo de produção de semente, cobertura do solo e fixação de nitrogênio, e o restante distribuído aos produtores para formar banco de sementes de adubação verde.

Para este ano a previsão é colher ainda 150kg de banana, 50kg de abacaxi, 2.000 kg de macaxeira e 100 kg de feijão de porco. Para 2017 a expectativa é colher cerca de 10 sacas de café, de 60 kg cada, e 150kg de guaraná.

“Além da experiência e conhecimento que estamos adquirindo com o estudo, identificando qual tratamento se adapta melhor a nossa realidade, o SAF tem comprovado em pouco tempo que pode trazer muitos benefícios para a agricultura familiar. Isso nos motiva a continuar disseminando o sistema para outras áreas, promovendo o crescimento e fortalecimento da agricultura familiar no município”, finaliza Sardinha.

A implantação da UE conta com o apoio do Centro Agronómico Tropical de Investigación y Ensenãnza (Catie), da Costa Rica, que possui mais de 20 anos de experiência em SAF na América Central e do Sul.

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