Café sombreado ajuda a recuperar a floresta

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Café sombreado ajuda a recuperar a floresta

Combinando o cultivo do grão a árvores da região, projeto que envolve 45 produtores no município de Apuí conseguiu dobrar a produtividade e planeja venda para o exterior

Texto: Cleide Silva para O Estado de São Paulo
Foto: Arquivo Idesam

Nascido em uma família de mineiros que cultivava café, Ronaldo Carlos de Moraes migrou há 12 anos para Apuí (AM), um dos municípios com maior índice de desmatamento na Amazônia, situado à beira da Rodovia Transamazônica. Lá também começou uma roça e plantou o grão no modelo convencional, a pleno sol, mas a produtividade era baixa e a renda familiar sempre tinha de ser complementada com outros trabalhos, como ajudante em outras plantações.

A situação começou a mudar há cerca de oito anos, quando ele alterou o modelo de produção para o sistema sombreado, com café conilon, mais rústico que o tradicional arábica. Para esse cultivo, Moraes teve de plantar também outras árvores, como as de açaí, andiroba e copaíba que, além de fazerem sombra para o café, ajudam a obter renda extra com a venda dos frutos e a extração de óleos.

“Depois dessa mudança melhorou tanta coisa que nem sei por onde começar”, diz Moraes, hoje com 41 anos. Ele relata aumento de 35% a 40% na renda e a melhora na saúde depois que parou de usar agrotóxico na plantação. “Conseguimos melhorar a casa, comprar alguns móveis e eletrodomésticos”, afirma. Ele tem ajuda da mulher, Daguimar e um pouco das filhas Lorraine de 13 anos e Juliana de 9 quando não estão na escola.

Moraes é um dos 45 produtores de Apuí que participam de um projeto do Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia (Idesam) que introduziu o cultivo de café sombreado no município depois de constatar que o produto se dava bem naquele solo, mas à sombra.

Além disso, por se tratar de uma área degradada, a entidade adotou um sistema agroflorestal, que combina o plantio de floresta com a agricultura,
ajudando ainda a recuperar o que tinha sido desmatado.

Para iniciar o projeto que incluía preparar a terra, doar insumos, mudas de café e de árvores nativas, além de ajuda técnica sobre plantio, o Idesam conseguiu, em 2012, ajuda do Fundo Vale. Hoje a região tem mais de 40 hectares de café agroflorestal, com certificação orgânica e está sendo comercializado no Amazonas, em São Paulo, Rio de Janeiro e
pelo Mercado Livre com o nome de Café Apuí Agroflorestal.

Um lote para testes foi enviado para uma empresa alemã que já aprovou o produto e, em breve, será iniciada a exportação.

PRODUTIVIDADE MAIOR

“Antes, a produção era de seis a sete sacas de café por hectare, e, depois da introdução de técnicas de agricultura sustentável, plantio de árvores, sombreamento e manejo a média é de 15 sacas por hectare”, informa Pedro Soares, gestor ambiental e gerente do programa de mudanças climáticas do Idesam. “Além do ganho em produtividade, tem o valor agregado, pois agora é um produto de melhor qualidade, com certificação orgânica e preço de mercado maior”, completa ele. “E esse ganho é repassado ao produtor.”

Os agricultores entregam os grãos a um torrefador na própria cidade que se juntou ao grupo e torra, mói e embala o café, que depois é levado para Manaus, de onde é redistribuído para os compradores.

No ano passado os produtores decidiram criar uma startup para migrar o modelo de operação para um negócio que gere renda e receita sem depender apenas de instituições. Nasceu então a Amazônia Agroflorestal, que, formalmente, tem um diretor – o dono da empresa de torrefação –, um único funcionário para cuidar dos contatos comerciais e, informalmente, 45 sócios.

RODADA DE CAPTAÇÃO
O mais importante com a criação da empresa, ressalta Soares, é poder captar investimentos para ampliar o negócio. Estava programada para março a primeira chamada de captação, mas a pandemia da covid-19 atrapalhou, pois era arriscado fazer isso num momento de incerteza econômica.

O plano era abrir uma chamada de captação numa plataforma estruturada de “equity crowdfunding”, usada para investimentos de impacto social. “A ideia é retomar o processo no fim do ano ou início de 2021″, informa Soares.

“O grande desafio é como sair desse ambiente de 40 hectares para um ambiente de 200, 250 hectares de Café Apuí, abastecendo centros urbanos e sensibilizando consumidores sobre a importância da história por trás do produto que estão comprando”, diz o gestor ambiental.

Outra fonte de renda para os produtores será a venda de créditos de carbono, pois o cultivo é orgânico, em sistema agroflorestal, dentro de um contexto de recuperação de áreas desmatadas.