Inventários florestais e estoque de carbono em Bale, Etiópia

Durante a segunda semana de nossa visita à Etiópia, o país ainda estava bastante abalado com a morte do Primeiro Ministro, Meles Zenawi, vítima de uma doença contra a qual lutava há mais de um ano e que não foi divulgada pelas autoridades. No dia 2 de setembro, quando nosso colega Gabriel Carrero iniciou seu retorno ao Brasil (confira no post anterior), aconteceu o funeral de Zewani, que foi acompanhado por milhares de pessoas, tanto pessoalmente quanto pelas redes de TV.


Pelo que vivenciamos durante toda a viagem, pude perceber que o governante era tido como um herói pela população local. De acordo com os etíopes com os quais conversei, o país passou por uma fase de grande crescimento e estruturação durante o seu governo. Durante a primeira semana na Etiópia, pudemos ver vigílias em diferentes cidades, que apenas cessaram no dia do funeral, o qual contou com a presença de dezenas de chefes de estado e representantes dos governos de diversos países. Zenawi governava o país desde 1991 e era um importante líder: “É uma tragédia para África e para a Etiópia chorar um líder tão excepcional, que contribuiu com um papel ativo em várias iniciativas continentais e globais, especialmente como anfitrião da União Africana”, disse Jacob Zuma, presidente da África do Sul, em uma declaração [a sede da União Africana fica em Addis Ababa, capital etíope].

Posteriormente ao dia do funeral, continuamos por mais uma semana na região de Bale com o objetivo de obter o máximo de informações possíveis para o planejamento do inventário florestal, o qual irá estimar e monitorar o estoque de carbono da vegetação a ser protegida pelo projeto.

As principais informações a serem obtidas e discutidas eram: os tipos de florestas, as causas de suas diferenças e as diferentes condições de conservação. Devido à grande diversidade de tipos florestais na região de Bale, era importante conseguirmos distingui-los para os estudarmos separadamente. Essa diferenciação se dará pela criação de estratos (1), os quais devem possuir condições similares para resultar em um estoque de carbono mais homogêneo. A utilização de estratos reduzirá o número de unidades amostrais que utilizaremos, portanto, reduzirá o custo e tempo do inventário. Com essa meta em mente, seguimos para os diferentes tipos de florestas. Em cada local tomávamos coordenadas geográficas e discutíamos as causas da diferenciação dos tipos florestais.

À esquerda, floresta de árvores de Erica sp.; à direita, florestas secas de terras baixas.
Fruto das observações de campo, verificamos que os fatores a serem considerados eram: altitude, pluviosidade e estado da floresta quanto à intervenção humana. Durante uma semana continuamos a checar em campo: florestas de altitude, secas e úmidas; florestas em terras baixas, em sua maioria secas; com diferentes condições de preservação. Essas observações de campo guiarão a equipe do projeto que ajustará o mapa de tipos de florestas. O mapa será ajustado a partir dos dados e das discussões de nossa primeira viagem de campo, por meio de outras coordenadas geográficas a serem obtidas em campo e de ferramentas de sensoriamento remoto.

O mapa será fundamental, pois nos dará a área, localização dos tipos florestais e permitirá – juntamente com os resultados do primeiro inventário a ser realizado (também conhecido como inventário exploratório) – calcularmos o número de unidades amostrais necessário para cada estrato criado e verificarmos se o número de estratos criados é adequado, ou se há a possibilidade de analisarmos o carbono de alguns estratos com características mais próximas de forma conjunta.

Floresta Úmida de Café

Essas informações foram apresentadas e discutidas com os demais membros da equipe do projeto, das ONGs Farm Africa e S.O.S. Sahel, na última reunião que tivemos, no dia 7 de setembro, após termos retornado à Addis Ababa. A reunião sanou as últimas discussões e permitiu a elaboração de um relatório, que irá direcionar toda a estratégia do inventário a ser realizado ainda esse ano.


No dia seguinte iniciei meu retorno ao Brasil. Após paradas em Johannesburgo e São Paulo, finalmente cheguei a Manaus na madrugada do dia 11 de setembro.
André Vianna

Coordenador do Programa Manejo de Recursos Naturais do Idesam


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1 – Estratos são áreas de floresta separadas de acordo com o grau de homogeneidade do objeto de estudo, como, por exemplo, volume de madeira, estoque de carbono, biodiversidade, entre outros.

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