Nas montanhas de Bale, Etiópia

Era segunda-feira, dia 27 de agosto de 2012, quando aterrissamos em Addis Ababa, capital da Etiópia. Esse país tem fama internacional de ser um dos mais pobres do continente africano e, consequentemente, do mundo. Na verdade, essa memória global está bastante desatualizada…


Após o final do império de Haile Selassie I em 1974 – aquele famoso no mundo Rastafari ­– e de mais de uma década do regime comunista (Derg) até 1987, a economia da Etiópia saiu da estagnação. A República Popular Democrática que se instaurou a partir da década de 1990, imprimiu à economia do país um acelerado crescimento econômico, que atualmente tem taxa de 10% ao ano, se baseia no setor agropecuário.


A missão do IDESAM nesse país é parte de um consórcio de instituições que conta também com a ONG NCRC, de Gana, e o Instituto de Mudança Ambientalda Universidade de Oxford, UK, e a ECFF (Environment and Coffee Forest Forum) da Etiópia, com a tarefa de ajudar o país a desenhar um projeto de Redução do Desmatamento e Degradação Florestal  (REDD+) na eco-região das montanhas de Bale.

    

No dia 28 de agosto, houve uma reunião entre as ONGs Farm Africa e SOS Sahel Etiópia com os representantes governamentais da empresa florestal do Estado de Oromia (OFWE) e do Ministério da Agricultura, além de doadores como o fundo da Noruega, e instituições conservacionistas atuantes na região. O objetivo foi apresentar o primeiro produto do consórcio para o projeto de Bale: uma análise das metodologias aprovadas pelo selo de certificação Verified Carbon Standards para se realizar um projeto de REDD+ que seja aceito e possa vender créditos de carbono no mercado voluntário. A avaliação foi apresentada de forma sucinta e direta e gerou interesse e um rico debate entre os participantes. Após o dia de reuniões, partiríamos rumo ao sul do país, uma viagem de 8 horas até a região ecológica de Bale.

As montanhas de Bale fazem parte de um dos 34 ‘hotposts’ de biodiversidade do mundo, e um dos nove da África (incluindo Madagascar e as ilhas no oceano índico). Esses 34 lugares abrigam mais de 50% das espécies de plantas e cerca de 42% dos animais vertebrados são endêmicos, ou seja, restritos aquelas regiões. Conhecido como o hotspot Afromontano e espalhado em pedaços montanhosos desde a Arábia Saudita até o Zimbabue, é na Etiópia onde ele é mais extenso.  Com altitude entre 2.500 a 4.500 metros, as montanhas de Bale abrigam o lobo etíope (Canis simensis) e o Nyala da montanha (Tragelaphus buxtoni) dentre as 48 espécies endêmicas ameaçadas de mamíferos, além de dezenas de espécies ameaçadas de aves e anfíbios. Com vegetação alpina, florestas secas e florestas úmidas, a região é bastante povoada com cerca de 2 milhões de km2 e 1,5 milhão de pessoas.


Juntos, os doutores Winston Asante (NCRC) e Tadesse Gole (ECFF), eu e André Vianna (Coordenador do programa de Recursos Naturais e especialista em inventário florestal do Idesam), percorreríamos a região de Bale e conheceríamos nos próximos três dias os tipos de vegetação com floresta seca, floresta tropical úmida, florestas de bambu,  savanas e os belíssimos campos alpinos de altitude. Também, pudemos conhecer os habitantes da região. Tivemos conversas e reuniões com as Organizações de Base Comunitária (CBOs), através das quais Farm Africa e SOS Sahel, em conjunto com OFWE, estão implementando o Manejo Florestal Participativo na ecoregião (PMF em inglês), e que vem sendo bastante útil para aumentar a governança e a conservação desses ambientes. O primeiro passo rumo à redução do desmatamento.


Constatamos que o crescimento populacional que leva à expansão da agricultura para a subsistência é o principal vetor do desmatamento, embora o pastoreio excessivo dentro da floresta contribua bastante para essa degradação. As taxas de desmatamento giram em torno de 5% ao ano, nos 700.000 hectares de florestas. A região é o local de origem do café Coffea arabica (e que delícia de café!), e agregar valor a essa produção é uma saída de grande potencial para aumentar a renda dessas famílias, além de outras como aumentar a produção de mel, por exemplo.

Voltei no dia 2 de setembro para a capital Addis e, em seguida, para o Brasil. Os outros colegas ficaram e foram explorar mais a fundo as diferentes vegetações e seus estoques de carbono. O próximo passo será apresentar um documento que os guie nos próximos passos para a construção e implementação de um projeto de Redução de Emissões do Desmatamento e Degradação Florestal (REDD), que seria o primeiro naquele país.

Gabriel Cardoso Carrero

Coordenador do Programa Mudanças Climáticas e Serviços Ambientais

Pesquisadores André Vianna (de gorro) e Gabriel Carrero (óculos escuros), 
entre os membros das organizações parceiras 

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