Lideranças indígenas resistem à Covid-19 para manter seus povos e sua cultura vivas

Lideranças indígenas resistem à Covid-19 para manter seus povos e sua cultura vivas

Nova fase da campanha atende comunidades tradicionais e instituições na capital amazonense

Fotos e texto por Henrique Saunier (Comunicação Idesam)

Ainda bastante presente nos centros urbanos, a contaminação pela Covid-19 também tem sido implacável nas comunidades e municípios do interior, que contam com menos estrutura hospitalar para atender casos graves da doença. A situação se agrava com as populações indígenas, que sentem os efeitos devastadores das perdas de pessoas que levaram consigo conhecimentos tradicionais fundamentais para a resistência cultural dessas etnias.

Diante desse cenário, o Regatão do Bem, iniciativa coordenada pelo Idesam, tem dado continuidade na mobilização de parceiros institucionais para levar alimentos e itens de higiene e limpeza pessoal para comunidades afetadas, trabalho iniciado no ano passado com o agravamento local da pandemia. Graças a parceiros como Fundação Banco do Brasil, Instituto Coca-Cola, Instituto Phi, União BR, União Amazonas, Instituto Asta e Greenpeace, o Regatão do Bem conseguiu viabilizar a entrega de mais de 1300 cestas e 7500 máscaras, na capital e no interior, somente em 2021. Nesta nova fase da campanha, 5200 pessoas foram assistidas com a entrega das cestas, que suprem necessidades básicas emergenciais que se tornaram inacessíveis neste período de isolamento.

Joilson Paulino, nascido em Barcelos, na Reserva Indígena Atroari, é uma das lideranças do povo Karapana, que na capital se concentra no Parque das Tribos, onde Paulino mora desde a sua fundação como primeiro bairro indígena de Manaus. Paulino relata que a contaminação no Parque das Tribos foi “algo muito forte”, mas que seu povo tem resistido com a ajuda de medicamentos e conhecimentos tradicionais. No entanto, ele também lamenta as perdas sentidas no período, que deixam não apenas o vazio das pessoas, como também do conhecimento que elas detinham.

“Tivemos a perda do nosso cacique geral por conta da COVID e eu perdi meu irmão, pai, tio, tias e primos. Para a gente está sendo muito difícil. A gente que está no papel de liderança se preocupa muito com o bem-estar do nosso povo e a gente estando debilitado, sem poder ajudar acaba se sentindo em um barco à deriva no meio de uma tempestade. Como indígena que vem enfrentando a pandemia no Amazonas, tivemos que encarar as perdas de nossas figuras mentoras, dos conhecimentos ancestrais, e é muito dolorido lembrar disso, pois eles são os sabedores da nossa cultura, da nossa raiz, da nossa identidade e eles foram sem poder se despedir, falar, ou mesmo preparar a comunidade para essa luta. Querendo ou não, a responsabilidade vem para quem tem um pouco mais de articulação e como indígena não poderíamos ficar parado vendo o nosso povo morrer”, desabafa Paulino, que conseguiu se recuperar da doença.

Resistência é mais do que uma palavra, mas um sentimento que Vanda Ortega Witoto sempre gosta de enfatizar quando vai falar de seu povo. A etnia Witoto atualmente se concentra em duas comunidades no Alto Solimões, nas aldeias Colônia e São Domingo, mas muitas famílias também já residem na sede dos municípios de Amaturá e Santo Antônio do Içá. Moradora do Parque das Tribos, em Manaus, desde 2019, Ortega é a representante oficial dos interesses do seu povo na capital amazonense. Atualmente, 178 famílias resistem às margens do Solimões. São famílias que já escaparam do extermínio na Colômbia, no período de forte exploração do seu território no rio Putumayo.

No Porto de Manaus, Vanda Ortega acompanha embarque de cestas enviadas ao povo Witoto (Idesam/Henrique Saunier)

“Nós sabemos que, infelizmente, essa pandemia não vai terminar agora. Achávamos que já teríamos superado isso em 2020, mas veio 2021 com toda a força desse vírus que é extremamente cruel e que afeta os nossos povos. As pessoas que puderem, peço que continuem apoiando as campanhas que existem de organizações como o Idesam, que têm garantido a sobrevivência alimentar dos nossos povos”, ressalta Ortega.

Segundo a liderança, no Brasil, o povo Witoto tem sido afetado pela Covid-19 de uma maneira não grave, com mais de 16 witoto que já estão recuperados da doença. “Tivemos parentes que ficaram internados mais de 15 dias no interior do Estado, mas felizmente não tivemos nenhum óbito do povo Witoto no Amazonas, mas registramos perdas na Colômbia e no Peru. Nosso povo está se organizando, está em luta pela resistência da nossa cultura, de uma maneira a garantir essa subsistência”, reforça Ortega.

Entrega de cestas no Parque das Tribos (Idesam/Henrique Saunier)

Instituições de Manaus também recebem doações

Em Manaus, além do Parque das Tribos, as iniciativas “Eu Amo meu Próximo” que atende crianças órfãs de familiares acometidos pela doença, e a Casa Vhida, que busca fornecer assistências médica, social e psicológica aos menores portadores de HIV, também receberam um pouco de esperança – ao todo, foram entregues mais de 6 toneladas, entre alimentos e materiais de limpeza e higiene.

Os recursos dessas entregas são da Fundação Banco do Brasil, Instituto Coca-Cola e Instituto Phi, e foram disponibilizados para a compra de mais de 21 toneladas entre alimentos não perecíveis, produtos de higiene e pessoal, privilegiando a compra de produtos regionais adquiridos no comércio local, também visando contribuir com a sobrevivência dos pequenos negócios.

União BR e União Amazonas, também são parceiros importantes nesse elo de solidariedade, conectando iniciativas que precisam de ajuda a quem quer ajudar. O Greenpeace Brasil é outro grande parceiro, disponibilizando todo o apoio logístico necessário para que essa ponta de esperança, chegasse a localidades mais afastadas, como Boca do Acre, Terras Indígenas no Acre (Camicuã) e na TI Ianomami na região de Awariw, para as comunidades Sanuma e Ye’Kwana.

A diretora executiva do Idesam e coordenadora do Regatão do Bem, Paola Bleicker, agradeceu o apoio de todos os parceiros que acreditam na iniciativa e enfatizou a necessidade de união nesse momento em que o cenário se agrava com os efeitos da segunda onda da doença. “Estávamos esperançosos de que a campanha deixasse de ser necessária, mas o que estamos vendo é um cenário que ainda preocupa bastante, principalmente quando se trata das populações tradicionais mais vulneráveis. É imprescindível que o setor privado e as pessoas continuem se mobilizando, pois ainda existem muitas famílias que precisam desse auxílio”, reforça Bleicker.

Sobre o Regatão do Bem

As comunidades tradicionais da Amazônia, verdadeiras guardiãs da floresta e que dependem de recursos da mata para a sua subsistência, passam por momentos de maior vulnerabilidade por conta da pandemia causada pelo novo coronavírus. Com diversos projetos em mais de 10 municípios do Amazonas, o Idesam conhece de perto essa realidade desafiadora, por isso tem agido por meio do ‘Regatão do Bem’ para ajudar a levar mantimentos a famílias em situações de risco.

Ao todo, até o final de 2020, foram mais de 5,5 mil cestas básicas entregues, prestando assistência emergencial a pelo menos 3,5 mil famílias na região. A campanha mirou a arrecadação de alimentos e itens de limpeza/saúde a famílias em localidades mais afastadas da Amazônia. Entre os principais parceiros que viabilizaram as doações estão a Fábrica de Eventos/cantor Thiaguinho, Impact Hub, a empresa social Um Por Cento, a banda Melim, o Ifam (Instituto Federal do Amazonas/Maués), a Aliança Guaraná de Maués, a Fundação Banco do Brasil, Ambev, Greenpeace, Sobrebarba, União Amazonas, Instituto Grupo Boticário, Malwee, Sitawi e Coca-Cola. Para mais informações, acesse https://idesam.org/regataodobem/