Brasil: “O desafio é implementar sistemas produtivos atrelados à floresta”

Jornal Arquitecturas,

por Carlos Teixeira Gonçalves -?

É um projeto de turismo alargado, com preocupações urbanísticas e com um lado comunitário, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, no Amazonas, Brasil. Nele, está prevista a criação de pousadas, “museus vivos” e pontos de observação. O projeto, um dos poucos no território amazônico com estas características, está no bom caminho e pretende-se que arranque no início de 2014.

Carlos Koury, secretário executivo do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (IDESAM), trabalhou na construção desta ideia de turismo para a reserva e esteve em Lisboa, onde o Jornal Arquitecturas o entrevistou. Mas há também portugueses envolvidos, como o arquiteto português José Castro Caldas.

Como surgiu esta ligação ao arquiteto português José Castro Caldas?

O Castro Caldas teve uma passagem por Manaus, a trabalhar com uma instituição que tem uma relação bem próxima com o IDESAM, a FAS [Fundação Amazonas Sustentável]. Numa dessas ações, tivemos uma interação relacionada com um programa de turismo na Reserva de Desenvolvimento Sustent?vel [RDS] do Uatumã. Na implementação de uma proposta de turismo para a realidade amazônica, onde é tudo muito distante, é preciso ter cuidado com a energia. Uma comunidade para chegar ao ponto mais prôximo de combustível pode demorar 12 horas. Tirar esta matriz de dependência é muito importante. [José Castro Caldas] faz parte do grupo. Ele, a Maria Matos Silva, arquiteta doutoranda em questões climáticas, relacionada com estruturas paisagísticas, e a Renata Luz, em Manaus.

Em que consiste este projeto da RDS do Uatumã?

O projeto, que estamos agora a constituir os parceiros, é para apoiar pousadas comunitárias para receber turistas. Vai haver todo um projeto de infra-estruturas chamadas “museus vivos” dentro das comunidades, para que ela seja uma beneficiária do que vai existir. Na altura de fazer o planeamento turístico, tentamos buscar dentro das 20 comunidades a característica mais específica. Quase como uma praça, com museuzinhos com orquídeas, bromélias, espécies de plantas ornamentais da Amazônia.

Então não são unidades de alojamento, é um espaço de interação, comunitário?

Sim, são espaços comunitários. As pousadas são lugares separados. É um contexto muito grande, de uma ponta à outra da reserva são 200 km, 424 mil hectares. O projeto vai ter os “museus vivos”, as pousadas comunitárias e pontos de observação de pássaros.

Em que fase está?

Foi planeado e agora está na fase da captação de recursos para implementação, em 2014. Esta reserva foi classificada como parque da Copa [Mundial de Futebol que ocorrerá, no Brasil, no próximo ano]. É um bom gancho para dar continuidade.

Qual é a importância destes projetos para as populações locais?

O grande desafio é criar sistemas de geração de renda visíveis para a realidade amazônica. O turismo entra com grande força, não como única oportunidade de renda, mas complementar. O desafio é implementar sistemas produtivos atrelados à floresta. Temos o projeto de criar pequenos pólos industriais de benefício de produtos extrativistas da floresta.

Há muitas iniciativas deste gênero?

Há pouquíssimos bons exemplos, desde a área do urbanismo, até às áreas comunitárias, de um planeamento adequado à realidade tropical. Eu não conheço nenhum bom exemplo. E este pequeno modelo também vai servir de replicação. Na Amazônia toda, quase metade da Europa, deve haver umas dez iniciativas [pensadas com a comunidade]. E de urbanismo, desconheço.

Para além de tentar criar valor econômico para as comunidades, de que forma estes projetos podem contribuir para o desenvolvimento sustentável?

Inovar e dar visibilidade mostra um caminho a seguir. Há uma taxa de decréscimo da desflorestação. O Brasil conseguiu vencer. Agora há um novo cenário, de viver na floresta, mas não há bons exemplos. Se este projeto der certo, o que mais estará atrelado a ele?

Mas há alguns problemas para a sustentabilidade da construção, relacionados, por exemplo, com o transporte de materiais?

A vantagem é que os produtos locais vão ser usados como premissa, o que diminui as distâncias. Mas é previsto que a inovação carregue esse peso. A proposta é incentivar, mesmo as empresas parceiras, porque não instalar-se em Manaus? A oportunidade existe, estamos falando de uma área de cinco milhões de quilômetros quadrados.

Não há um risco? A tendência do ser-humano a ser destruidor?

Nós viemos da área aberta, não viemos da floresta. A tendência é querer ver [longe]. Se a lógica econômica for favorável para o uso da floresta é porque também não é barato desmatar e sem floresta não há este tipo de turismo. A floresta pode ser economicamente viável para todos os envolvidos.

Mas tem de haver essa visão da parte de todos.

Exatamente e o IDESAM quer transferir essa visão para o município local. A proposta é que o município absorva [esta lógica]. O IDESAM quer fazer a adequação do conhecimento técnico à realidade local.

Fonte:?http://www.jornalarquitecturas.com/Not%C3%ADcias.aspx?noticia=611