Estudo aponta potencial da intensificação pecuária na preservação da floresta

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Estudo aponta potencial da intensificação pecuária na preservação da floresta

Um novo modelo de fazer pecuária vem mostrando resultados em Apuí, no sul do Estado, e surge como alternativa para  unir desenvolvimento econômico e conservação ambiental

Por Samuel Simões Neto

Todo o gado do Amazonas poderia ser mantido em apenas um terço da área hoje utilizada para o rebanho. É o que mostra um relatório divulgado esta semana pelo Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas), organização não governamental que atua há 10 anos no estado. A publicação, que utiliza o exemplo do município de Apuí, mostra que o potencial da atividade é utilizar apenas 30% da área atual de pastejo produzindo a mesma quantidade de animais. Com isso, as demais áreas são liberadas para outros usos, como agricultura, silvicultura, piscicultura ou mesmo a recuperação das florestas.

O relatório é resultado de três anos de pesquisa e teve como objetivo analisar a viabilidade econômica do pastejo semi-intensivo como uma alternativa para a redução do desmatamento e a melhoria de renda das propriedades rurais de Apuí. O método utilizado é conhecido como “manejo rotacional”, onde o gado é colocado em uma área subdividida e realiza um ciclo de rotação entre as subáreas, permitindo que o capim possa se recuperar e evitando que novas áreas sejam abertas.

Já foram instaladas 3 unidades demonstrativas no município do sul do estado. Em todas elas, a taxa média de lotação animal passou de 0,75 unidades animais por hectare (UA/ha) para 2,5 UA/ha, chegando a alcançar 4,2 UA/ha no período chuvoso. “Uma fazenda com 300 cabeças de gado teria potencial para criar 1.000, sem derrubar uma única árvore”, explica Gabriel Carrero, coordenador do estudo e coordenador do Programa de Produção Rural Sustentável do Idesam.

Mas ainda é preciso conscientizar os produtores sobre a necessidade de maiores investimentos iniciais em suas fazendas: “Enquanto no sistema tradicional são custos médios por ano – para uma área produtiva de 20 hectares – cerca de R$ 10 mil, para o modelo semi-intensivo o valor é de R$ 27 mil”, exemplifica Carrero.

No entanto, o estudo mostra que, depois de dois anos, essa situação econômica se inverte. Utilizando o exemplo da fazenda de 20 hectares, enquanto o modelo tradicional ainda tem fluxo líquido de -R$ 205 ao produtor, o método semi-intensivo gera uma receita de R$ 5.936. No sétimo ano, a diferença é ainda mais evidente, enquanto o modelo tradicional gera R$ 28 mil de retorno ao produtor, o semi-intensivo supera os R$ 85 mil.

Os pesquisadores alertam, no entanto, que superar a barreira cultural com os produtores é apenas a primeira etapa no processo de mudança na produção pecuária no sul do Amazonas. “A intensificação das pastagens é obrigatória no Brasil, mas em Apuí esbarra na incerteza sobre a posse da terra, na falta de assistência técnica e na carência de linhas de crédito adequadas ao produtor rural”, assevera Carrero, destacando que os investimentos encontram-se aquém do desejável e não vem atrelados a novas tecnologias e comprometimento ambiental.

A partir dos resultados do estudo, que mostraram o potencial da atividade para a economia e para a preservação ao Meio Ambiente, o Idesam busca intensificar o diálogo com fundos de crédito e entidades de assistência técnica para aumentar a escala de implementação da pecuária rotacional semi-intensiva no sul do Estado.

O sul do Amazonas

O sul do Amazonas é a mesorregião onde o rebanho bovino mais cresceu nos últimos 10 anos no estado. Conforme dados do IBGE utilizados no estudo, o rebanho dessa área passou de 100 mil animais, em 1990, para 750 mil, em 2012, e atualmente representa 50% do rebanho amazonense.  Ao mesmo tempo, informações no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o desmatamento nesta região também representa quase metade do desmatamento total verificado no estado.

Para os pesquisadores, o desmatamento na área se deve a dois motivos: a migração de novas famílias do sul e sudeste do Brasil – em sua maioria pequenos agricultores sem-terra – ou à ação de pecuaristas já estabelecidos na região, que enviam dinheiro e mantêm trabalhadores nas novas áreas, trabalhando em atividades de derrubada e estabelecimento de pastagens.