Gambazeiros, parteiras e artesãos lutam para não desaparecer

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Por Henrique Saunier

 

“Uma cidade sem identificação cultural é uma sociedade facilmente conduzida”. As palavras entusiasmadas de Mestre Barrô do Gambá, ou simplesmente Barrô, como é conhecido em Maués, traduzem bem o trabalho que o GT Sociocultural da Aliança tem buscado fazer, com o resgate de saberes tradicionais. Esquecidos pelas novas gerações, parteiras, artesãos, rezadeiras e mestres gambazeiros agora começam a serem valorizados como figuras emblemáticas dessa identidade regional. Mas ainda há um longo caminho a percorrer

A cultura vai além das manifestações na pintura, ou na música, e está também no simples ato do caboclo fazer uma roda de gambá e tomar um sapó para agradecer a colheita, ou em um objeto feito de massa de guaraná com técnica repassada de pais para os filhos. Essas tradições podem se perder com a falta de interesse dos jovens em dar continuidade e isso é algo preocupante para Barrô, membro do GT Sociocultural e conhecido agitador da cultura e esporte no município.

“Essa parte social e cultural vai nortear os outros grupos de trabalho. A música traz alegria, esperança. É um entretenimento, mas as pessoas também interagem. Hoje esse lado social e cultural é quase inexistente em Maués. O índice de drogas e alcoolismo nas comunidades é alto. A ideia é que os jovens se vejam como protagonistas desse processo e não só como observadores”, comenta Barrô.

Para chegar a esses jovens, Barrô precisou fazer adaptações ao próprio ritmo, sem perder a essência das batidas dos tambores, todos feitos com madeira reaproveitada da própria floresta. “A cultura do gambá conversa muito com a do guaraná. Geralmente, a maioria dos mestres gambazeiros é agricultor.  Se ele tem uma colheita boa, faz uma roda de gambá para comemorar, celebrando e perdurando sua cultura. Muitas letras inclusive falam sobre o guaraná, e foram repassadas da tradição oral”, completa o mestre Barrô.

Outra tradição bem antiga em Maués é a do artesanato, originada pelos indígenas da região, principalmente com a cerâmica, arranjos de sementes e teçume (trançados de palha ou cipó). No entanto, assim como o gambá, a atividade parece ter mostrado sinais de enfraquecimento, só que por outros motivos. A falta de apoio na organização de artesãs e de vias para a comercialização dos produtos fez com que muitos abandonassem a prática, inclusive os indígenas.

Artesã do ramo de cestaria desde os 12 anos, ofício aprendido com a avó na comunidade Menino Deus, Marta Parintins de Oliveira conduz as atividades do GT Sociocultural voltadas às colegas de profissão e aponta a falta de valorização do trabalho como outro motivo para a debandada na atividade.

“A gente tem muita necessidade de material, e isso é um pouco complicado, pois depende de uma liberação para os artesãos. O cipó, o barro, tudo hoje precisa de uma autorização para trabalhar e isso as vezes dificulta um pouco. Há também uma necessidade de mão de obra, porque é uma produção que dá bastante trabalho e realmente só fica mesmo quem gosta”, completa Oliveira.

O GT Sociocultural, assim como outros grupos de trabalho da Aliança Guaraná, enfrenta ainda a dificuldade logística e de comunicação com artesãos de diferentes regiões, problema também compartilhado pelo grupo encarregado de reunir parteiras mauesenses.

 

Visibilidade às parteiras

Presentes muitas vezes onde a saúde pública não consegue chegar, as parteiras e parteiros na Amazônia são verdadeiros símbolos do poder dos saberes, da fé e ancestralidade. Mas com a desvalorização desses conhecimentos ancestrais, parteiras, curandeiros e benzedeiros acabam sendo invisibilizados. Sem excluir as técnicas da medicina ocidental, o GT Sociocultural pretende integrar os saberes de parteiras, cuidadores intuitivos e profissionais de saúde, sempre buscando a maneira mais humanizada de trazer uma vida a este mundo.

“A gente começou a fazer os encontros e eu fui entendendo esse processo de maternidade mais ancestral, mais tradicional, daí veio a ideia de a gente unir os profissionais para tirar esse preconceito de que ‘as parteiras não sabem porque elas não estudaram’. Só que na verdade elas recebem muito o dom de Deus, dom dos sonhos e os conhecimentos passados de pais para filhos”, defende a fisioterapeuta e responsável pelo projeto Mama Ekos, Patrícia Mandi Delfino.

Com o Mama Ekos e apoio da Aliança, Patrícia, que também é doula, já realizou um Circuito de Parteria, onde identificou cerca de 70 parteiras na região, 32 de áreas indígenas. Ela também pretende construir uma Casa de Maternidade Humanizada, além de desenvolver produtos a partir de conhecimentos tradicionais para comercializar e gerar alguma renda para as parteiras.

Grávida de oito meses, Patrícia já confiou o nascimento de seu futuro filho à parteira mauesense Amazonildes de Almeida, que ostenta mais de 22 partos no currículo. “Fazer parto não é só um trabalho. A gente conversa, agrada, dá todo carinho. É algo que se faz com amor e toca dentro da gente. Quando vou fazer um parto e boto aquela criança no colo, algo brilha dentro em mim”, relata a parteira, uma das mais atuantes no Grupo de Trabalho.

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