AGM reforça a importância da cultura dos povos tradicionais na preservação ambiental

AGM-INTERCAMBIO-GTSOCIOCULTURAL

Por Henrique Saunier
Foto: Adriano Sarmento

 

O resgate de práticas ancestrais e a ligação entre a preservação do meio ambiente com a sobrevivência destas tradições têm norteado as atividades dos Intercâmbios de Mestres e Mestras do Gambá e outras manifestações culturais de Maués. Com seis edições já realizadas apenas em 2018, a troca de conhecimentos acontece sempre em alguma comunidade, com a participação de moradores de outras localidades e apoio do GT Produção Sociocultural, da Aliança Guaraná de Maués (AGM).

As comunidades de Nossa Senhora Aparecida do Pedreiro e Santa Fé (área indígena) foram as últimas a abrigar os encontros. Na comunidade de Santa Fé, o evento contou com a presença de Tuxauas e Manas do conhecimento ancestral dos rituais e manifestações tradicionais da região, que interagiram com os mestres e mestras ribeirinhos de diversas comunidades de Maués, proporcionando um momento de troca de saberes e diversão para todos os presentes.

Entre essa troca de saberes estão as especificidades do próprio Gambá “caboclo” e o Gambá “indígena”, que apesar de estarem em um universo cultural bem próximo, possuem suas diferenças, conforme aponta a cantora e pesquisadora amazonense Karine Aguiar, que pôde acompanhar alguns encontros.

Atualmente em andamento com sua pesquisa sobre ritmos tradicionais no interior de Maués e a relação que esses ritmos estabelecem com a natureza, para a Universidade Estadual de Campinas, Aguiar ressalta que o repertório de cantigas do Gambá Indígena é muito mais voltado a falar sobre as tradições dos ancestrais do povo Sateré-Mawé, enquanto que o repertório do Gambá não indígena (o caboclo) além de assumir uma dimensão religiosa (por meio das ladainhas), também tem uma dimensão profana, com temas que podem assumir desde um discurso jocoso, do amor romântico ou exaltar as próprias tradições das comunidades não-indígenas que o praticam.

Sobre a ligação da preservação do meio ambiente com a sobrevivência dessas manifestações, Aguiar afirma ser uma reação em cadeia, e que a crise ambiental é um fator preponderante para o desaparecimento de muitas das culturas tradicionais.

“Não há como pensar sobre manifestações musicais na Amazônia sem passar pela problemática da crise ambiental. Emprestamos muita coisa da estética musical ocidental como padrões melódicos, rítmicos e harmônicos, mas, a ‘eco crítica’ que a nossa música faz de nossa própria região, seja nas suas letras, na inserção de sons da natureza como o ruído das águas e o canto dos
pássaros, é que faz esta música diferente de todas as outras existentes no planeta”, salienta Karine Aguiar.

Para a pesquisadora, a atuação da Aliança Guaraná de Maués na revitalização dessas culturas é um trabalho urgente e necessário, não só para a garantia da sustentabilidade ambiental ou econômica, mas para a sustentabilidade cultural da região.

Resgate cultural

O primeiro encontro promovido pelo GT de Produção Sociocultural da AGM aconteceu na comunidade São José do Paricá, em março deste ano, com o tema “Tamboreando cultura nas águas e florestas da origem do guaraná”. Desde então, mais intercâmbios também foram promovidos pela Aliança Guaraná de Maués nas comunidades Ilha Michiles, Nossa Senhora dos Navegantes e Araçatuba do Limão.

Nesta última edição, além do Gambá, uma das atrações principais foi o tradicional Boi de Terreiro Teimosinho, guiado pelo Mestre Iracito, que resgata a manifestação que antigamente ocorria em diversas comunidades da região, além da apresentação da tradicional Tapiraiauara, apresentada pelos mestres e brincantes da Comunidade Santa Maria.

Para o coordenador técnico da AGM, Eric Brosler, esses encontros favorecem a interação dos detentores do conhecimento com as crianças e jovens das comunidades, para resgatar e fortalecer os costumes ancestrais, visando sempre a qualidade de vida das comunidades de uma forma saudável e sustentável.

Ao encerrar esse ciclo de intercâmbios, Brosler aproveitou para agradecer aos que participaram do movimento, incluindo os grupos de Gambá ‘Caminhando com Jesus’, ‘Retomando os Tambores’, ‘Pingo de Luz’, além do Mestre Barrô, Mestre Banguela, Mestre Marajó, Mestra Martinha, Tuxaua Pitacinho, Tuxaua Dionísio, Tuxaua Pedro, Zeca, Mana Brasilina, Erick Dammon e Tuxaua Josibias.

Conheça mais o trabalho da Aliança Guaraná de Maués:

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