Associação Metareilá divulga nota de repúdio a acusações do CIMI

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Associação Metareilá divulga nota de repúdio a acusações do CIMI

No último dia 12 de dezembro, a Associação Metareilá do Povo Indígena Suruí, uma das nove associações de base que representam o povo indígena Paiter-Suruí, divulgou uma carta de repúdio a uma série de reportagens publicadas pelo jornal “Porantim”, em sua edição de dezembro. O Porantim é publicado pelo CIMI (Conselho Indigenista Missionário) ligado à CNBB, da Igreja Católica.

Trazendo na capa a imagem de um código de barras e o título “Natureza à venda”, a publicação traz, em suas reportagens, graves acusações de desvio de dinheiro, compra de lideranças, alienação do território e impedimento do exercício de atividades tradicionais. Todas essas malezas seriam resultado, segundo o Porantim, de atividades relacionadas ao termo “Economia Verde”, mais especificamente ao Projeto Carbono Florestal Suruí, desenvolvido desde 2009 pelo Povo Suruí, com apoio de diversas organizações socioambientais.

O líder do povo indígena Suruí, Almir Narayamoga Suruí, também se pronunciou sobre o tema em seu perfil do Facebook. Segundo ele, “o Plano de 50 Anos do povo Paiter Suruí jamais proibiu o uso da terra e muito menos a caça, a pesca, derrubada de novas roças de produção agrícola sustentável e tradicionais, confecção de artesanatos. Somos contra, sim, a retirada ilegal de madeira, arrendamento de terra, pesca e caça predatória pelos invasores”.

No dia 17 de dezembro, a Associação Padereéhj, sediada em Ji-Paraná, também divulgou uma carta oferecendo apoio ao Povo Suruí contra as acusações do Porantim. “Repudiamos o que disse Henrique Surui e o que publicou o CIMI – Conselho Indigenista Missionário, pois estes não conhecem nossa realidade e nunca foram na nossa terra falar sobre os projetos que executamos, muito menos [oferecer] apoio para resolvermos problemas como o roubo ilegal de madeira em terras indígenas”, diz a carta.

Confira abaixo o conteúdo da carta divulgada pela Associação Metareilá:

NOTA DE REPÚDIO

Quando um jornal do Conselho Indigenista Missionário ataca um projeto indígena com as graves acusações de desvio de dinheiro, compra de lideranças, coerção da Polícia Federal, alienação do território e impedimento do exercício de atividades tradicionais, é preciso reagir.

A Associação Metareilá do Povo Indígena Suruí, uma das nove associações de base que, juntas, representam a totalidade dos 1.300 integrantes de nosso povo, comunica que está enviando uma representação formal à Comissão de Ética e Sindicância do Sindicato dos Jornalistas do DF contra a profissional Patrícia Bonilha e o veículo “Porantim”, pelo qual ela é responsável.

Esta é a primeira reação de nossa associação aos deploráveis ataques veiculados por esse jornal em sua última edição especial, divulgada nesta semana. Em entrevista assinada por aquela profissional, o jornal – que é publicado pelo CIMI, o Conselho Indigenista Missionário, ligado à CNBB, da Igreja Católica – veiculou, em preocupante transgressão da ética jornalística, uma assustadora série de mentiras acerca da vida dos índios Paiter Suruí no seu território, assim como do funcionamento do Projeto Carbono Florestal Suruí, um dos projetos realizados por nosso povo indígena desde 2009.

Sabemos que o CIMI tem profunda divergência ideológica em relação a projetos de compensação ambiental e somos capazes de respeitar o debate sobre esse assunto, e até de participar dele. Porém, esperávamos que os integrantes dessa entidade soubessem fazer diferença entre debater uma questão ambiental e realizar uma franca campanha de difamação contra o nome e a reputação de todo um povo indígena.

Afirma a entrevista que os Paiter Suruí estejam proibidos de caçar, pescar e produzir artesanato em seu território; que haja operações da Polícia Federal dentro do território indígena coagindo indígenas em suas aldeias; que haja desvio de dinheiro; que haja compra de lideranças indígenas de outras etnias para que estas venham a aderir a novos projetos; que o projeto vá levar, futuramente, à perda de direitos dos indígenas Paiter Suruí sobre sua terra devidamente demarcada e homologada.

Chega a assustar a ingenuidade, o descompromisso e a temeridade de profissionais jornalísticos que pensam ser possível publicar declarações de tal gravidade sem tomarem os devidos resguardos profissionais, sem perguntarem à fonte quais seriam as comprovações dessas acusações, e sem moverem esforços de apuração para saber se haveria alguma evidência que as apoiasse (e que garantisse aos profissionais um mínimo de segurança para as veicularem).

A Associação Metareilá é a entidade proponente do Projeto Carbono Florestal Suruí, em aliança com as outras sete das nove associações suruí.

As divergências acerca do projeto são enfrentadas com diálogo, com gestão de conflitos e com efetivas negociações entre as diferentes visões assumidas pelos Suruí internamente. Em nada esse debate será ajudado por uma campanha difamatória de uma organização alienígena que dá voz, em seu veículo panfletário, aos desabafos de uma liderança há muito afastada desse desafiador processo de construção de consensos, como é o caso do cacique Henrique Iabaday Suruí. E, certamente, as mentiras, leviandades e falsos testemunhos não irão contribuir em nada com a autonomia e o protagonismo do nosso povo indígena.

Por hora, convidamos os profissionais responsáveis pela publicação jornalística do Conselho Indigenista Missionário a virem até a Terra Indígena Sete de Setembro e conhecerem a variedade de visões que as diferentes famílias e clãs Paiter Suruí entretêm sobre o nosso Projeto de Carbono Florestal. Que façam como os muitos visitantes que recebemos; que façam como a equipe de auditores independentes que, há cerca de um mês, rodou por todo o território colhendo impressões, histórias de sucesso, problemas, depoimentos de crítica ou de satisfação e demais evidências de uma realidade complexa, de aldeia em aldeia. Que venham, principalmente, conhecer o trabalho comprometido e transparente da Associação Metareilá para levar a cabo com sucesso o Projeto Carbono Florestal Suruí e a sua justa e equitativa distribuição de recursos.

Muito nos desaponta a nós lideranças Suruí Paiter que, nesta época de emendas constitucionais como a PEC215 e outros ataques agressivos contra os direitos indígenas e a dignidade dos índios, um ataque do Conselho Indigenista Missionário se some aos ataques ruralistas e anti-indígenas que já recebemos de todas as partes.

Não podemos aceitar o uso de mentira e manipulação para atentar contra o nome do povo Paiter Suruí e seus esforços de bem viver. Pedimos a todos e todas que fiquem atentos aos desdobramentos desse episódio, e contamos com o apoio entusiasmado de nossos parceiros/as e amigos, e de todas as pessoas comprometidas com as causas amazônicas e com a veiculação da verdade, para a ampla divulgação do ocorrido e de nossas próximas respostas que virão.

Associação Metareilá do Povo Indigena Surui R. Geraldo Cardoso Campos 4343 B. Josino Brito – Cacoal,Rondônia – Brasil
CEP:76.961-496 FONE/FAX:69 3443 2714

Saiba mais sobre o Projeto Carbono Florestal Suruí neste link.