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Floresta Estadual (FES) Tapauá, no interior do Amazonas, registra desmatamento recorde e avanço de atividades ilegais

Floresta Estadual (FES) Tapauá, no interior do Amazonas, registra desmatamento recorde e avanço de atividades ilegais

Por Izabel Santos/Idesam
Foto: Cristie Sicsú

A Floresta Estadual (FES) Tapauá, localizada na calha do rio Purus, no Amazonas, está sofrendo com o avanço do desmatamento e outras atividades ilegais na região. Em 2022, a Unidade de Conservação (UC) registrou o maior desmatamento dos últimos 13 anos, com 773 hectares de área desmatada, somente no mês de abril. Esse número, apontado em apenas um mês, é maior que a soma de todas as outras áreas desmatadas na FES desde janeiro de 2010. 

Os dados são do Observatório BR-319 (OBR-319), que monitora mensalmente 13 municípios localizados da área de influência da rodovia federal. De acordo com o levantamento feito pelo OBR-319, a FES Tapauá apresentou, em abril, o maior desmatamento entre as UCs monitoradas, além de estar em 6º lugar entre as Áreas Protegidas mais desmatadas da Amazônia Legal. 

“Em comparação com abril de 2021, quando foram desmatados 6.10 hectares, o desmatamento registrado em 2022 vai muito além do que vinha sendo registrado”, aponta a pesquisadora do OBR-319, Paula Guarido. Segundo ela, esse aumento indica uma mudança na dinâmica do desmatamento na região, com grande pressão vinda da área de influência do distrito Realidade, localizado no município de Humaitá, às margens da rodovia BR-319. 

O primeiro alerta de desmatamento na FES Tapauá, considerando a série histórica analisada pelo OBR-319, foi em junho de 2018, de 0,86 ha. A segunda detecção veio um ano depois e, a partir de então, as detecções de desmatamento na UC começaram a ser mais frequentes e com áreas desmatadas cada vez maiores, até culminar em seu maior valor da série histórica, em abril deste ano. 

Em novembro de 2021, a equipe do OBR-319 esteve na FES Tapauá para dialogar com lideranças comunitárias e indígenas, além de autoridades municipais. Devido à ausência do Estado na UC, a principal reivindicação foi a presença de um gestor da Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Amazonas (Sema-AM), além de relatos de acesso precário à energia elétrica, água potável e serviços de educação, e saúde. Também foram relatadas invasões para atividades de pesca ilegal. 

“É preciso que o poder público olhe para essa região que tem sofrido grandes pressões de desmatamento, dos ramais do entorno vindo e indo em direção à BR-319, e que está sem gestor há anos, para que possa haver uma diminuição das atividades ilegais nesse território e para a proteção das comunidades que ali vivem. Isso se faz por meio de fiscalização, de combate às atividades ilegais e na promoção da melhora da gestão da UC”, ressalta Paula. 

Nota Técnica 

 O Observatório BR-319 publicou em abril a nota técnica “Abertura e expansão da ramais em quatro municípios sob influência da rodovia BR-319”, que analisa a situação em Canutama, Humaitá, Manicoré e Tapauá, no sul do Amazonas. A publicação identificou uma rede de ramais de 4.752 quilômetros (km) nos quatro municípios. O documento aponta que Tapauá, apesar de ser o município com a menor rede de ramais, apresentou a maior taxa de crescimento desse tipo de via, entre 2016 e 2021, aproximadamente 451%. Esses ramais estão concentrados na região próxima ao distrito Realidade, de onde se expandem as pressões sobre as UCs FES Tapauá e o Parque Nacional (Parna) Nascentes do Lago Jari. 

“As estradas não oficiais, chamadas de ramais, são construídas em locais de baixa governança ambiental e podem virar vetores para ações ilegais e de degradação da floresta. Um desses ramais já invadiu os limites da Floresta Estadual Tapauá. Grande parte do desmatamento e dos focos de calor na Amazônia está relacionado à rede de ramais e vimos esse mesmo padrão nos municípios analisados na nota técnica do Observatório da BR-319″, destacou Paula. “Mais de 80% do desmatamento acumulado até 2020 aconteceu em até cinco quilômetros dessa rede de ramais e estradas oficiais. Então, a expansão dessa rede de ramais tem que ser monitorada constantemente pelos órgãos de fiscalização ambiental para que se possa frear essas atividades ilegais na região”, completou a pesquisadora responsável pela nota técnica, Paula Guarido.  

 Sobre o OBR-319 

O Observatório BR-319 reúne organizações socioambientais que atuam na Amazônia e na área de influência da rodovia, são elas: Casa do Rio, CNS (Conselho Nacional das Populações Agroextrativistas), Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), FAS (Fundação Amazônia Sustentável), Greenpeace Brasil, Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia), Opan (Operação Amazônia Nativa), IEB (Instituto Internacional de Educação do Brasil), Transparência Internacional, WCS Brasil e WWF-Brasil. 

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