Plataforma ‘Cidades Florestais’ chega a comunitários da RDS do Uatumã

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Cidades Florestais, projeto coordenado pelo Idesam, promoveu treinamentos sobre a utilização do aplicativo e também de boas práticas na extração de Copaíba

 

Texto: Henrique Saunier
Foto: Divulgação Idesam

 

De 15 a 20 de dezembro de 2018, o Idesam promoveu encontros na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã para apresentar aos comunitários parceiros o funcionamento da plataforma Cidades Florestais, além de capacitações de boas práticas de extração de óleos vegetais. O aplicativo vai proporcionar a rastreabilidade dos produtos não madeireiros pelos comunitários que participam do projeto, daí a necessidade das oficinas, que contaram com demonstrações teóricas e práticas, apoiadas por cartilhas já disponíveis na biblioteca do Idesam. Os moradores das comunidades participantes também receberam kits para a correta extração de óleos vegetais.

Para esta capacitação, o Idesam desenvolveu todo o material didático, englobando as principais noções de organização e técnicas sustentáveis utilizadas no manejo florestal comunitário (madeireiro e não madeireiro), apontado como importante ferramenta na redução do desmatamento. Isso vai ao encontro do objetivo do projeto Cidades Florestais de fomentar essas práticas – como a extração de óleos – enquanto fonte de renda sustentável aos manejadores, além de uma alternativa às práticas predatórias de exploração convencional.

Em parte realizado por técnicos do Idesam, os treinamentos contaram ainda com apoio do engenheiro florestal do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Estado do Amazonas (IDAM), Luiz Rocha e dos próprios comunitários da RDS nos momentos de demonstração prática das atividades. Rocha aproveitou para conscientizar os comunitários a respeitarem o tempo da floresta. “O manejo é você trabalhar e utilizar com inteligência os produtos da floresta, de forma que garanta a sua continuidade e que seus filhos e netos também possam se beneficiar no futuro”, salientou Rocha.

Os alunos do curso receberam instruções sobre como utilizar a ferramenta de mapeamento do aplicativo Cidades Florestais, passando pela parte de cadastro na plataforma, utilização do GPS e instruções de como fotografar e registrar a espécie de onde o produto foi extraído.

De acordo com o coordenador técnico do projeto Cidades Florestais, Matheus Pedroso, a plataforma atualmente está em fase de beta teste e possui duas interfaces. Uma delas é a interface de produção, que permite ao comunitário registrar todo o percurso que ele executa desde a sua casa, durante o trabalho e até a volta pra casa; todos os gastos que ele teve durante a atividade e também quais produtos e quantidades ele auferiu. A outra interface é a de mapeamento, que permite o registro e armazenamento das espécies que o produtor utiliza. “A cereja do bolo é a possibilidade do cliente adquirir produtos do extrativismo totalmente rastreados desde a sua origem na floresta, o que até hoje nunca foi feito”, adianta Pedroso.

Boas práticas na cadeia de óleos vegetais

As comunidades Nossa Senhora do Perpétuo Socorro Maracarana e Santa Luzia do Jacarequara, ambas na RDS do Uatumã, participaram de um treinamento teórico que abordou as diferentes formas de uso dos produtos florestais não madeireiros, as diferenças entre os tipos de óleos vegetais e suas formas de extração. Já na parte prática, após uma apresentação inicial da árvore com as instruções de identificação da espécie, o morador da RDS, Aldemir Queiroz, demonstrou como fazer a extração correta do óleo na árvore de copaíba.

Durante o processo de perfuração, os alunos tiveram a oportunidade de manusear todos os equipamentos de extração. Em uma das comunidades, na única árvore encontrada na área propícia para a atividade, foi possível extrair quase dois litros de óleo logo na primeira tentativa. Depois de concluída a coleta, os instrutores mostraram como deve ser feita a vedação no local perfurado para evitar eventuais ataques de pragas.

“Esses dias foram bem produtivos, pois tivemos a participação ativa dos comunitários não só como alunos, mas também compartilhando seus conhecimentos adquiridos em muitos anos de vivência na floresta. O potencial dos produtos não madeireiros da Amazônia tem ainda muito a ser estudado e explorado com consciência. Por este motivo, o conhecimento tradicional das comunidades amazônicas e a manutenção de sua cultura são fundamentais para que novos produtos e novas pesquisas continuem existindo”, ressaltou Pedroso.

A extração de óleos fixos e essenciais a partir de plantas e suas estruturas (frutos, folhas, galhos, etc.) é uma forma eficiente de se obter produtos com alto valor agregado. O treinamento soma com a necessidade de se ter um controle de qualidade na produção dos produtos florestais não madeireiros, já que a maior parte é destinada à indústria alimentícia, cosmética ou farmacêutica, evitando riscos à saúde dos consumidores por meio de contaminação dos produtos com fungos e bactérias.

Sobre o Cidades Florestais

Financiado pelo Fundo Amazônia/BNDES, o Cidades Florestais visa a estruturação de duas novas linhas de produção de óleos vegetais, com mini usinas de beneficiamento em Apuí e na RDS do Uatumã, além de apoiar melhorias em outras três já existentes. O projeto busca minimizar a baixa adesão de tecnologias atuais e inserir novas ferramentas que auxiliem na produção florestal.

Quanto à produção madeireira, o projeto apoia a implantação de planos de manejo para 15 organizações sociais, com meta de ampliação de 40% da oferta atual de madeira proveniente de planos de manejo madeireiros de origem comunitária e familiar no Amazonas. Atualmente, nove organizações sociais dos municípios de Apuí, Carauari, Itapiranga, São Sebastião do Uatumã, Silves, Lábrea e Boa Vista do Ramos são beneficiadas pelo Cidades Florestais.

“Os produtos florestais não madeireiros são fundamentais para a subsistência de muitos povos ao redor do mundo, especialmente para aquelas que vivem no interior ou arredor de florestas. Conhecer esta cadeia é importante não apenas pelo seu potencial de retorno econômico, mas também pelo impacto positivo que as atividades de produção não madeireira podem proporcionar às comunidades tradicionais e à conservação da floresta”, destacou André Vianna, gerente do projeto Cidades Florestais.

 

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