Idesam apresenta propostas emergenciais para Apuí, que lidera queimadas na Amazônia

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Região lidera a lista dos municípios com mais focos de incêndio em toda a Amazônia. As alternativas vão de criar inteligência estratégica a ações de restauração florestal.

 

Por Samuel Simões Neto

 

Quando as imagens de fumaça no céu de Apuí começaram a chegar de nossas equipes locais, no final de julho, imaginávamos que seria um ‘mais do mesmo’; pois as queimadas ainda são uma triste realidade nessa região da Amazônia. Mas o que se viu nas semanas seguintes foi um crescimento exponencial do número de queimadas e incêndios, até o município chegar ao topo da lista, com o maior número de focos de incêndio de toda a Amazônia, ganhando de municípios do Pará e Mato Grosso.

A região sul do Amazonas é uma frente de expansão agropecuária na Amazônia, recebendo enorme pressão dos estados de Mato Grosso e Rondônia. Dos cinco municípios amazonenses na lista de municípios críticos do desmatamento, Apuí, Lábrea e Novo Aripuanã deram um salto em 2019, e continuam entre os municípios mais desmatados anualmente na Amazônia.

O biólogo Gabriel Carrero, pesquisador associado do Idesam, explica que o histórico de desmatamento em Apuí vem desde a fundação do município.

“Apuí foi criado a partir de uma colonização de comunidades vindas do sul do Brasil, com uma forte tradição de produção agropecuária. Ao chegar na Amazônia, eles tinham uma orientação clara – e institucional – de que precisavam desmatar para garantir sua propriedade sobre os lotes. Então foi nisso que o município construiu sua identidade”, aponta.

O biólogo alerta ainda que o período de seca na Amazônia geralmente compreende os meses de julho a novembro, sendo mais intensa nos dois últimos meses.

“Considerando que ainda não estamos no fim da época de estiagem, é importante desenvolver ações imediatas e emergenciais para evitar um descontrole completo das queimadas e incêndios na região”, pondera o pesquisador.

Presente há mais de 12 anos na região, o Idesam lançou, na última sexta-feira (6/9), uma nota técnica com propostas de curto e médio prazo para a região . O objetivo é gerar subsídio técnico para reduzir os impactos desta temporada de queimadas que vem afetando o município e Apuí e em especial o Projeto de Assentamento Rio Juma, que concentra 84% dos focos de calor de Apuí, e representou 21% do total para o Amazonas.

Além de propor uma análise detalhada sobre os incêndios – a fim de identificar a dinâmica do fogo e os responsáveis por este aumento recente de queimadas no município – o plano de ação envolve também a elaboração de uma estratégia conjunta para prevenção e substituição do uso do fogo para a limpeza de pastagens.

“Existem diferentes tipos de queimadas ou incêndios em Apuí. Cada um tem sua dinâmica e deve ter uma estratégia específica de enfrentamento. A ideia é envolver governo estadual, prefeitura, associações e sindicatos locais, entre outros atores, além de fortalecer a brigada de incêndios local”, explica.

Entre as ações, o instituto também propõe uma agenda positiva para o município, voltada à restauração florestal e ao incentivo à produção sustentável. Uma das estratégicas adotadas pelo Idesam em seus projetos na região que precisa ser mais difundida é o uso dos sistemas agroflorestais (SAF) e sistemas silvipastoris (SSPI), que mostram que é possível conciliar a produção agropecuária e florestal com a conservação de florestas nativas. As propostas buscam também consolidar a vida produtiva dos moradores locais, com aprimoramento da produção, técnicas de baixo impacto ambiental e combate a invasões e grilagem.

 

O impacto no clima

Para Pedro Soares, gerente de Mudanças Climáticas do Idesam, o aumento no número de incêndios florestais na Amazônia deixa o país em risco, uma vez que o Brasil assumiu compromissos de redução de emissões referendados no Acordo de Paris.

“As emissões de gases do efeito estufa estão diretamente atreladas à conservação da floresta em pé. Ou seja, o Brasil está queimando ativos ambientais que poderiam se tornar incentivos financeiros para as populações e comunidades que vivem na região amazônica”, explica.

Para Soares, além de fortalecer as equipes locais de controle e combate a incêndios, é preciso implementar alternativas que substituam o uso do fogo na região, pois ele é uma importante fonte de gases de efeito estufa.

“Mesmo no período de estiagem, a Amazônia não tem a ocorrência de fogo espontâneo, ou seja, estas queimadas e incêndios começam por ação humana e fogem do controle pela seca, atingindo áreas de floresta”, finaliza.

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