De lideranças comunitárias a jovens indígenas em formação, histórias de Elisângela, Márcia, Sandra e Maiara mostram como mulheres da Amazônia conduzem mudanças sociais, econômicas e culturais em seus territórios.
Na Amazônia, mulheres são o “esteio” de muitas famílias. Maternar vai além de gerar vida: é conduzir desde o ventre e seguir guiando. Em diferentes realidades, a liderança feminina — autoridade do lar — ultrapassa o quintal, alcança a floresta e redefine a maneira de viver, produzir e se relacionar com o território coletivamente.
Esta é a história de quatro mulheres amazônidas que transformaram experiências pessoais em força para mudar realidades em territórios diversos da região. Os relatos apresentados nesta matéria foram compartilhados pelas próprias protagonistas durante entrevistas concedidas à equipe de comunicação do Idesam.
Elizângela Cavalcante, 53, é uma dessas lideranças. Moradora da comunidade São Francisco do Caribi, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, localizada a cerca de 300 quilômetros de Manaus, no Amazonas, ela construiu uma trajetória marcada por desafios, autonomia e participação ativa na organização comunitária.
Ela tinha 12 anos quando começou a trabalhar, após a separação dos pais. Cresceu sob pressão, dividindo responsabilidades com muitos irmãos. Lembra de um short colorido, moda da época, comprado com o próprio dinheiro. Quando o pai viu, quis cortar a roupa. Ela enfrentou:
— “Foi com o meu dinheiro. Eu comprei pra usar na praia, eu vou usar”.
Ali já estava a mulher que daria o primeiro passo sempre. Ainda jovem, saiu de casa depois que a família não aceitou o namoro com o então companheiro, Gracilazo Miranda.
Anos depois, ela se tornaria uma das principais lideranças do território. Elizângela coordenou a elaboração do primeiro plano de manejo da RDS do Uatumã, instrumento fundamental para organizar o uso sustentável dos recursos naturais na região.
Hoje, ao lado do marido, ela gere a ILC Cavalcante, uma movelaria comunitária sustentável que utiliza energia limpa por meio de sistemas fotovoltaicos implantados pelo Idesam.
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Como muitas adolescentes da região, Elisângela foi morar e trabalhar em casa de família. “Não sabia fazer nada, mas fui obrigada a aprender”, contou. Passou dificuldades e enfrentou uma perda gestacional. Dessa experiência nasceu uma promessa silenciosa:
“Eu prometi que minhas filhas não seriam empregadas de ninguém.”

Hoje ela olha com orgulho para as três filhas adultas. Uma delas atua na área ambiental, outra trabalha com comunicação e a mais velha tem vocação empreendedora, premiada em um concurso de doces em Itacoatiara.
“Nenhuma delas foi empregada doméstica. Trabalham hoje com turismo atendendo aos visitantes, mas para a própria família. Eu não queria minhas filhas sendo dominadas, eu queria elas dominando”, disse.
No fim do ano passado, Elizângela passou por um susto após um mal-estar durante um evento em Manaus. A internação durou mais de um mês e trouxe um novo olhar sobre o tempo e a vida.
“Eu tenho pressa de viver e de fazer o bem. Saí do hospital valorizando ainda mais a natureza, o território e o tempo”, contou.
Por conta da internação, a última reunião mensal do coletivo que coordena, o “Mulheres Resolvidas”, precisou ser adiada. Ainda assim, o grupo continua transformando realidades no território. As participantes fazem parte de famílias que mantêm Sistemas Agroflorestais (SAFs), participam do plantio e da coleta e se fortalecem em encontros com rodas de conversa e capacitações.
“No início do grupo, muitas mulheres casadas não tinham condição nem de dizer o próprio nome numa apresentação. Hoje conversam, se apresentam, levam outras mulheres e combinam trocas de mudas e até de animais. Elas se apoiam”, relatou.
No sul do Amazonas, no município de Apuí, a 1.097 quilômetros de Manaus, na região conhecida como “Arco do Desmatamento”, encontramos Márcia Brito, uma agricultora que encontrou sentido na agrofloresta e hoje é uma produtora de destaque e parceira do Café Apuí Agroflorestal.
Márcia ouvia falar com frequência sobre o sistema agroflorestal. O assunto despertou nela o interesse em conhecer mais sobre o cultivo de café nesse modelo produtivo — interesse que, com o tempo, se transformou em vontade e depois em sonho.
Com a assistência técnica apoiada pelo Idesam e pela Amazônia Agroflorestal, voltada ao cultivo de café, a produtora encontrou um novo sentido para a atividade. Foi também nesse período que conseguiu superar um quadro de depressão.
“Seria o nosso único recurso, mas foi um recurso maravilhoso, que proporcionou novas experiências. Podemos trabalhar em família e ensinar para nossos filhos que a cafeicultura é um meio de estarmos juntos e aprendendo”, contou.
Márcia conquistou a terceira colocação na última edição do Campeonato de Qualidade do Café em 2025, promovido pela Amazônia Agroflorestal em parceria com o Idesam no município de Apuí.

O reconhecimento rendeu um convite para o Florada Premiada, considerado o maior concurso de cafés produzidos por mulheres do mundo, realizado em Belo Horizonte, onde foi anunciada como campeã regional do concurso, promovido pelo Projeto Florada e apoio do Grupo 3 Corações.
Márcia conta que, com a agrofloresta, aprendeu que o sistema pode se tornar um espaço de autonomia feminina e de esperança para as mulheres agricultoras, que passam a ver seu trabalho sendo reconhecido.
“Aprendi que tudo nessa vida é possível. A agrofloresta é muito importante e acredito que será essencial para fortalecer a autoestima de nós, mulheres agricultoras. Ela nos incentiva a ter mais curiosidade e a aprender cada vez mais sobre o café agroflorestal”, disse a produtora premiada.
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Em Lábrea, também sul do Amazonas, encontramos Sandra Barros, 60, vice-presidente da Associação dos Produtores Agroextrativistas da Colônia do Sardinha (Aspacs), organização engajada na cadeia de produtos derivados de óleos vegetais da Amazônia, como andiroba, copaíba e manteigas (murumuru e tucumã) e demais produtos como tucumã, castanha e mel de abelha. É uma das organizações parceiras do Idesam.
Fundada há quase trinta anos, a ASPACS sempre foi liderada por homens, conta Sandra. “Uma organização que sempre foi liderada por homens, e passa a ser liderada por uma mulher, a princípio existe desconfiança. Uma resistência por parte do machismo. Muda a organização, muda a estratégia, passa a ser mais colaborativo e há abertura para a inclusão e valorização do trabalho”.
“Já enfrentei muitas resistências, muita dificuldade na gestão. Minha voz não era ouvida, mas não desisti. Com trabalho, transparência e confiança consegui ter voz e vez. Analisando as experiências que passei, vejo que a aceitação melhorou, mas o machismo ainda está estampado no rosto. Não podemos desistir, foi muita luta pra conquistarmos nosso espaço”, compartilha Sandra.
Sobre a presença feminina nas comunidades, as mulheres passaram a se destacar. Contribuem na renda familiar e se tornaram protagonistas da própria história, diz Sandra sobre a transformação no território.

“Meu maior desafio foi quando assumi a presidência da Aspacs: lutar pelo meu espaço. Onde o sexo oposto não aceitava ser comandado por uma mulher. Eles precisaram entender que eu estava ali para somar e fortalecer. Foi muito difícil. Chorei muitas vezes”.
Se lideranças como Elisângela, Márcia e Sandra consolidam mudanças nos territórios, uma nova geração começa agora a trilhar esse caminho. Maiara Batista, 19, é uma dessas jovens em Tapauá, no sudoeste do Amazonas, a cerca de 450 quilômetros de Manaus.
A jovem indígena representa uma nova geração que começa a ocupar espaços de formação e organização política nos territórios amazônicos.
Ela participou de oficinas realizadas em Tapauá, dentro de uma iniciativa do Idesam de formação voltada à juventude indígena que aborda temas como direitos constitucionais, políticas públicas, governança territorial e defesa de direitos.
“Estudamos educação em direitos fundamentais, direitos indígenas e também sobre políticas públicas e monitoramento do território. Como jovens, estamos nesse caminho de aprender e participar”, contou.
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Maiara integra o processo de organização da Organização da Juventude Indígena de Tapauá (OJIT), que busca fortalecer a participação da juventude nas decisões que impactam os territórios.

“Queremos entender melhor os nossos direitos, participar das reuniões da organização e ter voz nas políticas públicas. A juventude precisa saber que tem direito de falar”, afirmou.
Para ela, esse movimento também está ligado à valorização da identidade e da cultura dos povos indígenas.
“A gente quer resgatar a nossa cultura e seguir com ela. É por isso que estamos caminhando nesse processo de organização da juventude”, disse.
A filósofa francesa Simone de Beauvoir escreveu, em O Segundo Sexo, que “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Nos territórios amazônicos, essa ideia ganha forma nas trajetórias de lideranças que transformam experiências pessoais em força para conduzir famílias, comunidades e iniciativas que moldam o futuro da floresta — como Elisângela, Márcia, Sandra e Maiara.
Texto: Fabíola Abess/Idesam | [email protected] | Fotos: Arquivo Idesam






