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Projeto ‘adiciona’ compensação de carbono à produção de matérias-primas amazônicas na Resex Chico Mendes

Projeto ‘adiciona’ compensação de carbono à produção de matérias-primas amazônicas na Resex Chico Mendes

Iniciativa conduzida por Idesam, Vert Shoes e P4F foi executada entre agosto de 2019 e o início de 2021, beneficiando 173 famílias

 

Por Lennon Costa
Foto: TV Brasil

 

Para tirar do papel um programa de Pagamento por Serviços Ecossistêmicos (PSE), dentro de sua cadeia de fornecimento de borracha, localizada na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, em Rio Branco (AC), a Vert Shoes, marca francesa de tênis sustentáveis, buscou auxílio junto ao Idesam.

A alternativa encontrada foi um projeto de insetting, modelo cuja estratégia é promover a compensação de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) de uma organização dentro de sua própria cadeia, atrelado a um sistema de pagamentos por resultados de desmatamento evitado, visando recompensar famílias extrativistas pela redução de emissões atingidas pelo modelo de extrativismo que conserva florestas nativas.

Executada entre agosto de 2019 e o início de 2021, a iniciativa, que contou com apoio do programa Partnerships for Forests (P4F), teve saldo positivo, como afirma Victoria Bastos, coordenadora do Programa de Mudanças Climáticas do Idesam. “O projeto desenhou o programa de PSE com base em 173 famílias da Resex Chico Mendes, associadas à Amopreab (Associação dos Moradores e Produtores da Reserva Extrativista Chico Mendes) e à Cooperxapuri (Cooperativa Agroextrativista de Xapuri), duas associações locais que são fornecedoras da Cooperacre (Cooperativa Central de Comercialização Extrativista do Acre), que, por sua vez, comercializa a matéria-prima para os solados de borracha dos calçados da Vert Shoes”, informa.

Segundo ela, o PSE está em fase anterior à implementação, etapa que ainda depende de processo de consulta local com as associações e famílias envolvidas. “Quando o projeto for implementado efetivamente, essas 173 famílias poderão ser beneficiadas pela redução de emissões geradas pela conservação da floresta. Esse benefício poderá ser via aprimoramento e fortalecimento da associação local e/ou aumento de geração de renda para as famílias”, explica Victoria, reforçando que a estratégia de insetting também pode contribuir para organizações mitigarem riscos dentro de sua cadeia de fornecimento, ao monitorar o desmatamento associado à produção da sua matéria-prima e ao fortalecer a relação com organizações de seus fornecedores, como associações e cooperativas locais.

Para Beto Bina, coordenador das cadeias produtivas da Veja Fair Trade, marca por trás da Vert Shoes, o objetivo da empresa sempre esteve atrelado a “trazer mais valor para o trabalho da borracha nativa, influenciando um exemplo de bioeconomia e de geração de renda com a floresta em pé”. “O trabalho com o Idesam ajudou a nos capacitar sobre os principais conceitos de insetting de carbono e mapeamento do desmatamento, para que pudéssemos desenvolver protocolos para mitigar o desmatamento ilegal e bonificar as famílias que conservam”, argumenta.

Bina acrescenta que o aprendizado foi grande, proporcionando desde conceitos e metodologias novas, como o REDD+, até práticas de precificação, com os exemplos de projetos que o instituto já trabalhou. “O nosso trabalho com o Idesam foi um passo grande e importante, mas apenas começou. Definimos as metodologias e processos que serão implementados e, agora, estamos no momento de colocar a teoria em prática e irmos alimentando a nossa relação para refinar o trabalho juntos e seguirmos aprendendo”, complementa o representante da Veja Fair Trade.

 

“(O processo do projeto de insetting) trouxe a credibilidade de que estamos desenvolvendo a metodologia certa, em um tema com ainda poucas referências”

– Beto Bina, coordenador das cadeias produtivas da Veja Fair Trade, marca por trás da Vert Shoes.

 

O projeto

Após a procura da Vert Shoes, empresa executora do projeto, e do programa P4F, programa apoiador, o Idesam ficou responsável pela parte técnica do projeto de insetting, o que, segundo Victoria, “englobou todo o desenho do modelo de cálculo de redução de emissões por desmatamento evitado, como definição de linha de base, área de referência e protocolo de monitoramento do uso da terra na área do projeto”.

A atuação do Idesam no projeto pode ser dividida em duas fases. Na primeira, foram elaborados um estudo de viabilidade técnica e financeira, um guia metodológico para monitoramento e um documento de apresentação do projeto. Já na segunda fase, foram concebidos: um relatório de monitoramento do primeiro período do projeto (agosto de 2019 – julho de 2020), uma cartilha orientadora para as famílias fornecedoras sobre PSE e uma proposta de modelo de repartição de benefícios para pagamento de PSE integrado a bonificações.

De forma adicional, o Idesam ainda construiu com a Vert Shoes e a Cooperacre um modelo de repartição de benefícios decorrentes das reduções de emissões geradas. Victoria ressalta que todos os benefícios são destinados às famílias extrativistas e associações correspondentes. “O modelo de repartição foi desenvolvido mantendo a integração dos modelos de pagamento e bonificações que a Vert Shoes já realiza junto às famílias e associações fornecedoras”, enfatiza a coordenadora do Programa de Mudanças Climáticas.

Além de Idesam, Vert Shoes e P4F, também participaram do projeto as seguintes instituições: o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), no desenvolvimento da plataforma de monitoramento; o SOS Amazônia, responsável pela seleção e capacitação de 200 novas famílias; o Instituto de Desenvolvimento Social (IDS), auxiliando no desenvolvimento de um protocolo de origem sustentável da borracha; e a Universidade Federal do Acre (Ufac), conduzindo uma pesquisa socioeconômica na comunidade envolvida no projeto.

 

Próximos passos

Desde 2007, a Vert Shoes apoia a estruturação de cadeias produtivas de látex natural no Estado do Acre, em parceria com associações de extrativistas. Atualmente, mais de 1.200 famílias estão diretamente envolvidas em sua cadeia de fornecimento do látex e, diante do sucesso do projeto de insetting, Victoria revela que o passo seguinte é ir além da Resex Chico Mendes. “Esperamos que o modelo possa ser replicado para as outras comunidades fornecedoras da empresa”, comenta ela, referindo-se aos municípios acrianos de Brasileia, Assis Brasil, Xapuri, Porto Walter, Rodrigues Alves, Cruzeiro do Sul, Feijó, Tarauacá e Sena Madureira, às demais unidades de conservação e áreas particulares no Estado.

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