Trajetória do café agroflorestal ganha guia com experiências e boas práticas

Trajetória do café agroflorestal ganha guia com experiências e boas práticas

Publicação lançada na véspera do Dia Mundial do Café está disponível na biblioteca virtual do Idesam

 

Texto: Lennon Costa

 

Na semana em que é comemorado o Dia Mundial do Café — 14 de abril —, o Café Apuí, produto de uma iniciativa do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (Idesam), tem um motivo a mais para comemorar: o lançamento da obra Do projeto à empresa de impacto: A experiência do Café Apuí Agroflorestal. A publicação narra a experiência de sucesso e, nas palavras de Mariano Cenamo, diretor de Novos Negócios e fundador do Idesam, também serve como guia para organizações que estão enfrentando os mesmos desafios.

O lançamento ocorreu durante um encontro online, realizado no último dia 13 de abril. Além de Cenamo, estiveram presentes Marcia Soares, líder de Parcerias no Fundo Vale; Gustavo Pinheiro, coordenador de Economia de Baixo Carbono no Instituto Clima e Sociedade (iCS); e Aline Souza, sócia de Inovação, Negócios de Impacto e ESG na SBSA Advogados. O evento também contou com a parceria em divulgação da da Fundação Rede Amazônica e do Amazon Sat.

“É uma trajetória longa, que se iniciou lá atrás, em 2012, através de uma parceria que o Idesam buscou com os pequenos agricultores de Apuí”, relembra Mariano. “O objetivo era encontrar formas de utilizar terras gerando mais renda, reduzindo o desmatamento e reflorestando áreas degradadas”, complementa o diretor de Novos Negócios do Idesam, ressaltando que o desafio era encontrar alternativas viáveis para a produção sustentável no município.

E o que nasceu como projeto migrou, em 2019, para uma empresa de impacto, a start-up Amazônia Agroflorestal — processo que demandou muitos cuidados. “O Idesam não estava preparado para faturar com o café, emitir nota fiscal. Não está na nossa finalidade. Fizemos então uma rodada de captação e 11 colaboradores se tornaram os primeiros sócios investidores da Amazônia Agroflorestal, que realiza grande parte das operações do café. Atualmente, a marca Café Apuí evolui através de uma grande iniciativa”, revela Mariano.

Para explicar os detalhes jurídicos da empreitada, Aline Souza, advogada e sócia de Inovação, Negócios de Impacto e ESG na SBSA Advogados, destaca que também foram necessários arranjos inovadores. “A Amazônia Agroflorestal é uma sociedade limitada, em que a gente, na hora da constituição, já pensou nas cláusulas B”, afirma ela, referindo-se ao Sistema B, certificação que mede e gerencia impactos sociais e ambientais de organizações. “São cláusulas que já ajudam a pensar na responsabilidade dos administradores e a buscar a geração de impacto positivo socioambiental na atividade econômica exercida por aquela empresa”, complementa.

Na constituição da empresa na Junta Comercial do Amazonas, relembra Aline, as cláusulas B foram responsáveis por dar início à configuração do contrato social da Amazônia Agroflorestal. “Em seguida, elaboramos um parecer bastante sofisticado para o Idesam, com análises de cenários, prós e contras. Fomos estudando os vínculos possíveis entre o Idesam, uma organização sem fins lucrativos, e a Amazônia Agroflorestal, uma nova empresa que estava responsável por dar continuidade a esse projeto”, comenta a advogada.

 

Dicas

Durante o evento, a advogada compartilhou dicas para organizações que buscam o mesmo caminho trilhado pelo Idesam no caso do Café Apuí — entre o que fazer e o que evitar. “É a extração das lições que a gente aprendeu nesse processo todo, juntamente com os estudos de cenário para o Idesam”, explica.

“Sobre o que fazer, é importante conhecer os diferentes conceitos sobre negócios sociais, negócios de impacto, empresas regenerativas, enfim, pois há um grande guarda-chuva de terminologias e conceitos e sempre oriento que a iniciativa busque se alinhar com aquilo que tiver mais identidade com seu perfil. O segundo ponto, principalmente para quem está interessado em fazer vínculo societário, é acompanhar as ações da Enimpacto (Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto). A terceira é conhecer quais são os limites jurídicos para desenhar um arranjo societário e contratual”, lista a advogada, citando como última dica positiva a busca por apoio especializado e conhecimento de modelos de sucesso.

A respeito do que não fazer, Aline enumerou os seguintes pontos: 1. Simulação: Criar uma expectativa irreal, fazendo crer que determinado negócio foi realizado, quando, na verdade, foi outro; 2. Confusão patrimonial: Não separar de fato os patrimônios dos envolvidos; 3. Conflito de interesses/partes relacionadas: Utilizar de sua posição ambivalente para extrair benefícios pessoais ou institucionais; e 4. Estruturar sem clareza de separação de objeto e governança.

 

O encontro

Presente ao evento, Gustavo Pinheiro, coordenador de Economia de Baixo Carbono no Instituto Clima e Sociedade (iCS), falou sobre como a filantropia faz para acreditar e investir em diferentes etapas da curva de desenvolvimento de negócios, ou seja, qual a importância de pensar em novos modelos para o terceiro setor. “Para nós, no iCS, esse projeto com o Idesam, do Café, é um grande aprendizado. Essa publicação e a fala da Aline compõem uma base muito importante para construirmos modelos e até consolidarmos entendimentos, tanto no meio jurídico quanto no meio administrativo de institutos e fundações, do que é possível fazer em prol desse tipo de inovação”, exalta.

 Por sua vez, Marcia Soares, líder de Parcerias no Fundo Vale, falou sobre a forma como a instituição tem apoiado organizações e negócios de impacto. “É uma história de muito aprendizado, desafio e inovação. Estamos há dez anos na Amazônia e apoiamos diferentes agendas, entre elas as produtivas locais. Nós acreditamos que proporcionar um modelo diferente para que as populações locais, ao invés de degradar ou partir para uma atitude de desmatamento, pudessem ter uma renda gerada a partir de projetos de conservação sempre esteve em nosso DNA. A questão principal é que fomos percebendo que, de fato, a questão econômica está no cerne da devastação, mas também é oportunidade para virar essa chave”, argumenta.

“Então, fomos amadurecendo ao longo dessa trajetória e percebendo que o lugar do Fundo Vale seria por meio de negócios de impacto socioambiental, fortalecendo essa economia que mantém a floresta em pé”, acrescenta a líder de Parceria do Fundo Vale. “E isso foi bacana do Café Apuí, que a gente participou desde quando nem o Fundo Vale pensava em investir em negócios de impacto. Ele surgiu como um projeto que provocava uma mudança de uso do solo em uma região completamente impactada pelo desmatamento”, emendou Marcia.

 

História e perspectivas

Os primeiros passos do Café Apuí vieram da história de um casal de produtores locais, Maria das Dores e Francisco. “Eles tinham um cafezal, mas o abandonaram, pois não davam conta. Lá, cresceram muitas imbaúbas, que proporcionaram sombra, adubo — com a queda das folhas — e fecharam a área, impedindo que outras espécies viessem a concorrer por espaço”, conta Mariano Cenamo.

O resultado, como recorda o diretor de Novos Negócios do Idesam, foi um café mais produtivo e saboroso, ambos benefícios proporcionados pelo sistema agroflorestal. “Isso permite uma maturação mais uniforme dos grãos, um acúmulo de açúcar maior — conferindo mais qualidade — e ainda reduz a necessidade de mão de obra, de trato cultural e de adubo”, complementa, ressaltando que o processo conduzido pela natureza o encantou, dando origem ao projeto.

Segundo ele, uma ideia levada em consideração até hoje é a de que não é possível se falar em conter o desmatamento ou a expansão de áreas de produção sem encontrar alternativas econômicas que gerem renda e que melhorem a qualidade de vida dos que estão nas fronteiras do desmatamento na Amazônia. No caso de Apuí, a pecuária é a opção mais presente — apesar de pouco rentável, exige pouca mão de obra e muita liquidez para a compra de gado. “Foi assim que Apuí se tornou, em anos recentes, um município campeão de desmatamento. Nosso levantamento indica que pelo menos 80% da renda primária a partir de uso da terra, no município, vem da pecuária”, reforça.

Atualmente, o impacto da cultura agroflorestal do café se estende a toda a cadeia produtiva. “Já plantamos mais de 14 mil espécies de plantas nativas; temos conseguido um aumento de 66% na produtividade em relação ao sistema convencional. Além disso, reflorestamos 45 hectares (a meta é superar 300, nos próximos anos) e temos gerado um aumento médio de renda para o produtor de 300%, beneficiando diretamente 59 famílias, mas com meta de superar 200”, lista Mariano.