Artigo – Conservação da Amazônia via desenvolvimento socioambiental

Artigo – Conservação da Amazônia via desenvolvimento socioambiental

[:pt]“A bacia amazônica é uma dessas grandezas tão grandiosas que ultrapassam as percepções do homem”.  Mário de Andrade, 1927″

A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo. Possui uma fantástica diversidade biológica e cultural. Além de milhares de espécies animais e vegetais, muitas delas ainda não identificadas pela ciência, nela vivem povos indígenas, grupos remanescentes de quilombos, comunidades de seringueiros, castanheiros, ribeirinhos, babaçueiras, entre outros.

Esses grupos desenvolveram-se em diferentes momentos da história brasileira e estabeleceram uma estreita relação com o ambiente no qual vivem. O conhecimento acumulado torna-se notório ao observarmos a sabedoria empregada nas relações do dia a dia como: no convívio harmonioso com o regime das enchentes; na utilização distinta da floresta de várzea e de terra firme; no cultivo do roçado de mandioca com grande diversidade de manivas; no preparo da farinha; nos artesanatos; na utilização das plantas medicinais; nas danças, mitos, rituais e no hábito de viver sem a preocupação de acumular.

Contraditoriamente, por muitas vezes – e quase sempre – essas populações não são consideradas durante a elaboração de projetos de conservação e desenvolvimento da Amazônia. Os programas de conservação de espécies, em geral, deixam de incluir o homem nas estratégias adotadas para atingir suas metas. De forma semelhante, a maioria das populações que habitam e vivem na floresta são excluídas das discussões técnicas e políticas
envolvidas em grandes obras na região, como abertura de estradas e construção de hidrelétricas.

Geralmente esses empreendimentos são primeiramente justificados pela importância no cenário econômico nacional, seguem um modelo sulista de desenvolvimento e que pouco beneficia o amazônida. O que se percebe é a ausência de políticas públicas voltadas à realidade amazônica, de diretrizes que contemplem as peculiaridades desta população e de assistência técnica e programas que viabilizem o desenvolvimento socioambiental dos mesmos. Um exemplo dessa realidade está explícito no documentário ”Enquanto isso a febre continua” (Idesam, 2009), apontado o descaso com a saúde pública no interior da Amazônia.
Nesse sentido, há urgência na mudança do paradigma mundial e no modelo de desenvolvimento que se projeta para a Amazônia e outras regiões tropicais do planeta.

Os maiores responsáveis por manter a floresta em pé são seus habitantes, que por seguidas gerações usufruem de seus benefícios sem comprometê-los para o futuro.

Portanto, o mundo deveria ter “olhos mais atentos” para compreender, respeitar, valorizar e aprender com esse tipo de desenvolvimento local baseado no modo de vida tradicional.

Com isso, acredita-se que as políticas nacionais e internacionais devem intensificar seus esforços na valorização dos produtos extrativistas via manejo sustentável; na melhoria do acesso das comunidades tradicionais à sistemas de saúde e educação; no reconhecimento dessas populações como legítimos habitantes locais, concedendo-lhes o direito real sobre a terra, e recompensando-os pela utilização responsável da floresta. Dentro dessa visão, o desenvolvimento da Amazônia deve estar solidamente embasado no fortalecimento e reconhecimento da importância dos habitantes locais e sua cultura, promovendo a percepção global de que todos são responsáveis pela perpetuação de um dos maiores patrimônios naturais da humanidade.

Eduardo Rizzo Guimarães é Engenheiro Florestal formado pela Universidade de São Paulo. Atua como pesquisador do Idesam desde 2006.

Camila Carla de Freitas é Bióloga formada pela Universidade Federal de São Carlos com mestrado em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Atua como pesquisadora do Idesam desde 2008.

Carlos Gabriel Koury é Engenheiro Florestal formado pela Universidade de São Paulo com mestrado em Ciências de Florestas Tropicais pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Atua como coordenador do Programa de Unidades de Conservação do Idesam desde 2006.[:]